sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Como agradecer a Deus a Beatificação de D. Álvaro...

... e todas as coisas boas (e más):

"Obrigado! Nestes momentos, brota naturalmente da alma esta primeira exclamação. A nossa gratidão pelo que contemplámos dirige-se ao Rei dos séculos, ao imortal, invisível e único Deus, honra e glória pelos séculos dos séculos [1].

Obrigado, Trindade Santíssima, por este presente que fizeste à Igreja, ao Opus Dei e a toda a humanidade, ao propor como referência e como intercessor a amável figura deste Teu servo. As celebrações em Madrid durante estes dias e as que decorrem na Cidade Eterna e em inúmeros países, com as Missas de ação de graças e com as orações dos milhares de pessoas que vão rezar à Basílica de Santo Eugénio diante do corpo do novo Bem-Aventurado, fazemo­‑las nossas, com o espírito que S. Josemaria condensou, desde os começos da Obra, numas breves e intensas palavras: Deo omnis glória! Regnáre Christum vólumus! Omnes cum Petro ad Iesum per Maríam!Renovemos o desejo de dar a Deus toda a glória, lutando com decisão diária para implantar o reinado de Jesus Cristo na sociedade, bem unidos ao Papa, deixando-nos levar pela Virgem Santíssima, nossa Mãe, até Jesus."

D. Javier Echevarria (Prelado da Obra) in Carta de Outubro 2014

[1]. 1 Tm 1,17.


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Não se pode demolir a Igreja de ontem para construir uma nova

Não se pode demolir a Igreja de ontem para construir uma nova hoje; não é possível esquecer e condenar o que a Igreja até agora ensinou com autoridade para colocar no lugar da doutrina segura, teorias e concepções novas, pessoais e arbitrárias; não é possível imitar as opiniões contemporâneas mutáveis e profanas do nosso tempo, o critério de pensar e de acção da comunidade eclesiástica... Não é possível resolver as questões difíceis ou enfraquecer as leis exigentes com adaptações historicistas para interpretações subjectivas.


Papa Paulo VI in Audiência Geral, 16 de Novembro de 1966


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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O Purgatório

by José Manuel Pimenta | 14.04.2014

Faleceu em Paris, há poucos dias, o historiador francês Jacques Le Goff. A sua obra revolucionou toda a historiografia moderna e revalorizou a imagem da Idade Média revelando-a como um período bastante luminoso e dinâmico, contrariando a tese do humanismo renascentista que afirmava o contrário. Além de centenas de artigos, tinha mais de 40 livros publicados, desde Os Intelectuais na Idade Média e Mercadores e Banqueiros na Idade Média, ambos de 1957, até ao recente À la recherche du temps sacré, Jacques de Voragine et la Légende Dorée, de 2011 (1).

Recentemente, uma das suas obras que foi abundantemente revisitada, intitula-se: O Nascimento do Purgatório. Nesta obra o autor analisa a criação ou invenção (naissance), do Purgatório, sobretudo a partir do século XII, como lugar intermédio entre o Céu e o Inferno.
Aquilo que Le Goff parece entender como “naissance” do Purgatório é, na verdade, a definição doutrinal relativamente ao Purgatório e que se dá sobretudo nos Concílios de Florença (2) e de Trento (3). Referências ao Purgatório podemos encontrá-las muito antes das referidas definições conciliares e sempre fundamentadas na Sagrada Escritura e na Tradição, porque qualquer definição doutrinal tem que ser garantia da pureza doutrinal (ortodoxia) e o seu conteúdo tem que expressar e estar em conformidade com a Palavra de Deus e a Tradição.

Um dos fundamentos bíblicos para este dado de fé encontra-se quando se fala em certos textos da Sagrada Escritura dum fogo purificador, como por exemplo: «mas, se a obra de alguém se queimar, perdê-la-á; ele, porém, será salvo, como se atravessasse o fogo» 1 Cor 3, 15; ou ainda: «deste modo, a qualidade genuína da vossa fé - muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo também provado pelo fogo - será achada digna de louvor, de glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus Cristo» 1 Pe 1, 7; no Segundo Livro dos Macabeus (12, 43-46) pode ler-se que com as ofertas em favor dos mortos estes ficam livres dos seus pecados. O qual confirma a existência e presença deste dado de fé na Tradição Vetero-Testamentária.
Passando agora para a época patrística, percebe-se claramente a presença desta doutrina. E na própria obra do professor Jacques Le Goff, encontrar-se a consciência da existência deste dado de fé nessa época: « (…) a opinião dos grandes Padres da Igreja do século IV, Ambrósio, Jerónimo e Agostinho - que as almas de certos pecadores poderiam talvez ser salvas durante esse período, sofrendo provavelmente uma provação» (4). Mesmo apresentando um posicionamento claramente incoerente, o professor Le Goff, ele mesmo, torna-se voz da presença clara desta doutrina no período patrístico. Um dos melhores exemplos dessa clara consciência da existência deste dado de fé, se bem que em fase de aprofundamento, é a vigorosa síntese sobre esta doutrina que se pode ler nos Dialogi de São Gregório Magno (a.540-604):

«Pelo que diz respeito a certas faltas leves, deve crer-se que existe, antes do julgamento, um fogo purificador, conforme afirma Aquele que é a verdade, quando diz que, se alguém proferir uma blasfémia contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado nem neste século nem no século futuro (Mt 12, 32). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas neste mundo e outras no mundo que há-de vir».

De facto, um dos primeiros textos do Magistério onde aparece o termo «Purgatório», como modernamente é conhecido, surge no pontificado do Papa Inocêncio IV (a.1243-1245), mais concretamente na sua carta apostólica Sub catholicae profissione (DZ. 838, 23 § 18). Esta, que no seu conteúdo materializa de forma bastante precisa e ortodoxa, toda a Tradição Bíblica e toda a Tradição da Igreja, assume e integra distintamente a anterior reflexão de São Gregório Magno presente nos seus Dialogi. No seu conteúdo encontra-se uma frase de grande importância para este debate e que pode ser o elemento desconstrutor da tese do professor Le Goff; «Nós, que em consonância com a tradição e autoridade dos santos Padres [o] denominamos “purgatório”». Junto a citação completa:

«No evangelho, enfim, a Verdade afirma que, se alguém tiver proferido blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado nem neste século nem no futuro [cf. Mt 12,32]: por estas palavras se dá a entender que algumas culpas são perdoadas no século presente, outras, ao contrário, no século futuro; o Apóstolo diz que “a qualidade da obra de cada um será provada pelo fogo” e “aquele cuja obra for queimada receberá a punição, mas ele mesmo será salvo como que através do fogo” [1Cor 3,13.15]; também os próprios gregos, segundo o que se diz, segundo a verdade e sem nenhuma dúvida crêem e afirmam que as almas daqueles que receberam, mas não cumpriram a penitência, ou então os que morreram sem pecado mortal, mas com pecados veniais ou de pouca monta, são purificados depois da morte e podem ser ajudados com as orações de sufrágio da Igreja. Ora, porque dizem que o lugar de tal purificação não lhes foi indicado com nome preciso e peculiar pelos seus doutores, Nós, que em consonância com a tradição e autoridade dos santos Padres [o] denominamos “purgatório”, queremos que, de agora em diante, seja por eles chamado com este nome. Com aquele fogo transitório, de fato, certamente são purificados os pecados, não todavia os delituosos ou mortais que não foram perdoados antes mediante a penitência, mas os pequenos e de pouca monta que ainda pesarem depois da morte, mesmo tendo sido perdoados durante a vida».

Afirmar que a definição doutrinal do Purgatório foi inventada e que se começou a falar-se de Purgatório apenas no século XII é completamente desajustado e incorrecto, quer no termo, quer na fundamentação da tese. Em toda a tradição da Igreja, os conceitos desenvolvem-se e amadurecem ao longo dos séculos, por isso, o termo correcto será definição doutrinal e não “naissance”, isto é, nascimento. A doutrina do Purgatório não nasceu na Idade Média. Nesse período deu-se, antes, um aprofundamento da sua definição doutrinal. E isto não é apenas uma questão de palavras…

Notas:

(1) Cf. http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-o-historiador-jacques-le-goff-1630555

(2) Concílio de Florença - Decreto para os gregos, 6 jul. 1439 - Dz. 1304 - Igualmente, se os verdadeiros penitentes falecerem no amor de Deus, antes de ter satisfeito com frutos dignos de penitência o que cometeram ou deixaram de fazer, suas almas são purificadas depois da morte com as penas do purgatório; e para que recebam um alívio destas penas ajudam-nos os sufrágios dos fiéis viventes, como o sacrifício da missa, as orações, as esmolas e as outras práticas de piedade que os fiéis costumam oferecer pelos outros fiéis, segundo as disposições da Igreja.

(3) Concílio de Trento - Sessão 25ª - Decreto sobre o purgatório, 3 dez. 1563 – Dz. 1820 - Já que a Igreja católica, instruída pelo Espírito Santo, a partir das sagradas Escrituras e da antiga tradição dos Padres, nos sagrados concílios e mais recentemente neste Sínodo ecuménico, ensinou que o purgatório existe [cf. *1580] e que as almas aí retidas podem ser ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e sobretudo pelo santo sacrifício do altar [cf. *1743-1753], o santo Sínodo prescreve aos bispos que se empenhem diligentemente para que a sã doutrina sobre o purgatório, transmitida pelos santos Padres e pelos sagrados Concílios, seja acreditada, mantida, ensinada e pregada por toda parte.

(4) LE GOFF, Jacques – O Nascimento do Purgatório, 1995, p.17


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Uma cruz branca por cada bebé abortado



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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Verdades mentirosas - Pe. Gonçalo Portocarrero

Reza a história que um oficial de marinha estava zangado com o comandante do navio em que ambos andavam embarcados. Tendo a seu cargo o diário de bordo, ocorreu-lhe nele escrever: «Hoje, o capitão não se embebedou». Era verdade, porque de facto o dito não se tinha embriagado, mas uma verdade mentirosa, porque qualquer leitor concluiria que o comandante andava habitualmente alcoolizado, o que mais não era do que uma rematada mentira.

Há muitas formas de mentir. Uma delas é dizendo a verdade, mas de forma a insinuar uma falsidade. Por exemplo, se se disser de alguém que não é nenhum anjinho, está-se formalmente afirmar a realidade, porque os seres humanos não são anjos, mas é óbvio que se está, sobretudo, a sugerir que a pessoa em causa é um grande malandro.

O mesmo se diga das instituições eclesiais, principalmente quando têm a desgraça de merecer algum protagonismo mediático. Se, para cúmulo, também forem alvo de uma rigorosa investigação jornalística, é certo e sabido que os resultados não poderão ser menos do que escandalosos, até porque, em caso contrário, o investimento de meios económicos e humanos não teria retorno.

Uma entidade da Igreja tem alguns bens, para assim poder realizar o seu apostolado? É podre de rica. Tem gente? Claro, é porque lhes arranja tachos e conhecimentos que lhes são úteis para trepar na vida. Os seus membros rezam? São fanáticos. Mortificam-se? São masoquistas. O fundador é santo? Compraram a canonização. Tem gente influente? São lóbi. E assim por diante, … mas sempre presos, por ter cão ou o não ter.

Já com Jesus foi assim. Ele comia e bebia? Era um glutão e um beberolas. Dava-se com publicanos e pecadores? É porque era como eles. Expulsava os demónios? Pois bem, era com o poder do próprio Belzebu que o fazia. Curava no dia de sábado? Então é evidente que transgredia a Lei. Perdoou a adúltera? Um cúmplice não teria feito de outro modo! Censurava os escribas e os fariseus? Era porque estes, sendo cultos, não se deixavam enganar, ao contrário da arraia-miúda.

É certo que nem todos crêem nestas caluniosas insinuações, mas geralmente fica a ideia de que a entidade em causa é, pelo menos, «polémica», «controversa» ou «duvidosa», até porque onde há fumo, há fogo. «Se Ele não fosse um malfeitor» – disseram os fariseus a Pilatos, quando lhe entregaram Jesus – «não O entregaríamos nas tuas mãos» (Jo 18, 30).

Não é possível que o mundo aplauda os discípulos do Crucificado, mas seria lamentável que, com as suas verdades mentirosas, lograsse dividir a Igreja, ou confundir os fiéis. Os critérios mundanos não são aptos para julgar as instituições eclesiais e qualquer cristão coerente sabe que a contradição é um dos critérios para aferir a autenticidade evangélica de um carisma. 

A Beata Teresa de Calcutá sabia-o e, por isso, quando João Paulo II lhe fez notar, com bom humor, que toda a gente falava bem dela, mas mal dele e de uma obra de Deus, a santa fundadora das Missionárias da Caridade reagiu com santa inveja, pedindo orações. Com razão, porque bem-aventurados serão os que forem insultados e perseguidos e deles disserem falsamente toda a espécie de mal, porque será grande a sua recompensa nos Céus (cfr. Mt 5, 11-12). in Voz da Verdade


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Frase do dia

"As tentações de ciúme, desespero, desencorajamento, desconfiança, etc...são todas obras do demónio." 

S. Pio de Pietrelcina


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terça-feira, 28 de outubro de 2014

O Papa Francisco e o Big Bang

Os jornalistas ficaram "histéricos" porque o Papa Francisco terá dito que o Big Bang não é incompatível com a existência de Deus. 

Num discurso à Pontifícia Academia das Ciências, disse o Santo Padre: 

“O Big Bang, que hoje se coloca na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a”

Este discurso já foi considerado pelos jornalistas como uma reaproximação da Igreja à ciência (não sabia que estavam desavindas), tentando mostrar mais uma vez o espírito revolucionário do Papa Francisco.

O Diário de Noticias, que vem insistindo no jornalismo cor-de-rosa, chega mesmo a dizer que o Papa “voltou a romper com algumas linhas de pensamento mais conservadoras da Igreja Católica”.

Duvido que algum destes jornalistas leia o blog Senza, mas mesmo assim aqui ficam umas dicas:

- Quem propôs a teoria do Big Bang foi um sacerdote católico. Sim, é isso mesmo, foi o Pe. Georges Lemaitre que apresentou essa teoria, à qual chamou "hipótese do átomo primordial". À época foi considerada ridícula por muitos cientistas. Parece que afinal o padre tinha razão;

- "Parece" porque uma teoria é uma teoria. É a melhor que temos até agora, mas não quer dizer que não venha a ser substituída por outra. Em ciência não há doutrina imutável;

- Se foi um sacerdote a apresentar a teoria, não deveria logo criar a suspeita que não seria incompatível com Deus-Criador? Ou acham que o homem tinha dupla personalidade?

- A incompatibilidade entre a Igreja e ciência foi tão grande a longo dos séculos que há (mais de) 35 crateras na Lua com nomes de padres jesuítas (que foram também cientistas);

- A necessidade de Deus na Criação prende-se com a necessidade de uma causa que esteja fora do Universo para que tenha sido criado: Nada vem do nada.

Que Deus está por trás do Big Bang, caso esta teoria seja verdadeira, já tinha sido afirmado pelo Papa Pio XII, pelo Papa João Paulo II e pelo Papa Bento XVI. Mais uma vez se vê que o Papa Francisco continua de acordo com os anteriores Papas e afinal não produziu nenhuma revolução na relação entre ciência e fé.

João Silveira


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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Conversão - D. Nuno Brás

“Convertei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1,15): este foi o convite de Jesus a todos aqueles que com Ele se encontravam pelos caminhos da Galileia. O anúncio do amor divino, da sua misericórdia, sempre foi na boca de Jesus um convite à conversão dirigido a todos.

A conversão, a mudança de vida não é uma atitude facultativa, por parte de quem se deixa encontrar pelo Nazareno. Faz parte da Boa Nova do amor e da misericórdia, do perdão.

O amor que Jesus anunciava, aquele ao qual Ele convidava e que mostrava já presente no meio da história – porque esse amor, longe de ser aquilo a que os seres humanos habitualmente chamam amor, é o próprio Deus que se faz homem e por todos sofre a cruz, assumindo o pecado do mundo inteiro para a todos oferecer a sua vida (1Jo 4,10) – o amor anunciado por Jesus, porque é infinitamente maior que cada um de nós e que toda a humanidade no seu conjunto, convida a perceber como estamos longe do verdadeiro amor e, a partir daquilo que somos, empreendermos, com decisão, o caminho que nos conduz atéEle, ou seja, a conversão. 

Trata-se de mudar tudo na vida de cada um: a maneira de pensar, o modo de ser, as atitudes, a forma de viver com os outros, os hábitos e os vícios, o pecado, para que tudo possa assumir, harmoniosamente, a forma do amor de Deus.

Não tenhamos dúvida: não existe pastoral (e, em particular, pastoral familiar), tal como não existe vida cristã (e, acrescentaria mesmo vida humana digna desse nome) sem esta permanente atitude de conversão por parte de todos.

Não existe Igreja progressista nem conservadora; não existem partidários da misericórdia ou do juízo; não existem defensores do acolhimento ou do rigorismo. Aquilo que existe é a Igreja peregrina para a casa do Pai, é a Igreja que se torna presença do próprio Jesus – não pelas suas capacidades mas porque essa é a missão que o próprio Senhor lhe confiou.

Todos somos chamados, seriamente, à conversão. Batizados e membros do Corpo de Cristo, e todos aqueles que a si mesmo se colocam ou colocaram fora dele e (sobretudo) todos aqueles ainda que para ele querem caminhar, com seriedade.

Tudo o resto são opiniões de quem não faz parte da Igreja mas sabe como ela deve ser, notícias de jornais que relatam a vida da Igreja como se fosse uma partida de futebol, uma guerra sanguinária ou uma simples curiosidade, fruto de alguma grande ou pequena vaidade.

E, no entanto, a todos (a todos mesmo), Jesus continua hoje a proclamar: “convertei-vos, e acreditai no Evangelho”!

in Voz da Verdade


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domingo, 26 de outubro de 2014

Vertigem - José Maria André

Ontem, o João apanhou-me ao final da tarde nos corredores do Técnico, para me dar uma informação muito importante. Ainda tenho fresca a sua defesa da tese, com que concluiu um mestrado brilhante em engenharia. Desta vez, o João não vinha expor novos avanços da investigação, mas tinha um assunto mais importante. Acabava de pedir a sua namorada em casamento e estava interessado numa ajuda, que eu já explico.


Nesta época do mundo, em que tantos projectos de felicidade deram lugar a desilusões amargas, uma pessoa pergunta-se como vai acontecer desta vez. Alguns namorados não têm toda a consciência do que pode estar em jogo, mas o João e a namorada decidiram uma coisa muito radical, que dá vertigem: o casamento deles vai ser um passo sem retorno. Se derem esse passo, toda a vida deles vai ficar decidida até ao fim, sem escapadela possível. Não vai haver segunda oportunidade, aconteça o que acontecer.

Devo explicar que o João e a namorada não se tratam de maneira descuidada, conservam um pequeno toque de cerimónia, como se se conhecessem há pouco tempo, e não querem alterar esse estilo. Várias coisas correram bem e levaram à situação actual. Começaram o namoro com a noção de que queriam algo definitivo; evitaram que a fantasia encobrisse a realidade; falaram pormenorizadamente da família que queriam constituir e de como educariam os filhos; compreenderam o papel de Deus em todo este projecto.

O João e a namorada não queriam embarcar em fantasias, queriam algo ousado, mas real. Parecia-lhes pouco interessante darem um passo definitivo em nome de uma ilusão, por não conhecerem a condição humana, com as suas grandezas e fraquezas. Portanto, não deixaram que a emoção prevalecesse. Curiosamente, não estavam à espera de descobrir que essa relação sóbria, verdadeira, era mil vezes mais deliciosa que um fogo arrebatador em que não se pode confiar. Ficaram a ganhar, sem o procurarem.

Como andou pelo estrangeiro, não é preciso explicar ao João que há milhões de raparigas no Planeta, que são mais altas, ou mais bonitas, ou cantam melhor, ou sabem mais matemática, ou falam mais línguas... O que tornou a namorada única para ele, foi vê-la como a futura mãe dos seus filhos, a mulher com quem a aventura de construir a família fazia sentido. Quanto mais falavam dos filhos, dos amigos dos filhos, do ambiente em que eles hão-de de crescer, mais o João se convencia de que era mesmo com aquela rapariga que ele queria casar. Foi algo muito surpreendente, que ultrapassou o realismo com que observavam os pequenos defeitos um do outro (porque cada um tem certas qualidades e os defeitos correspondentes) e lhes dizia «vale a pena!».

Contudo, o ponto que correu mesmo bem não foi a delicadeza com que se trataram, nem o respeito mútuo, nem a imagem de rectidão e de responsabilidade que cada um tem do outro, nem sequer a sintonia que desenvolveram em relação ao projecto que queriam construir em comum. O João e a namorada sentiram uma vertigem tão grande quando pensaram no namoro e no casamento que a sua relação com Deus se transformou. Só de pensar na responsabilidade que cada um assumia em relação ao outro! Na injustiça, se enganasse o outro por ligeireza! Assim, rezaram mais do que nunca e perguntaram a Deus se aquele era realmente o caminho certo. Com generosidade, cada um disse a Deus que queria amá-Lo acima de tudo e ser fiel à vocação. Não cabe aqui o resultado desta oração, mas um resultado evidente foi que cada um entrou na oração do outro. Também falaram disso, um com o outro, e, por um destes efeitos mágicos de que só Deus é capaz, cada um descobriu, para além de tudo o que se poderia esperar, como era importante para o outro e como Deus estava presente naquele caminho que os aproximava dEle.

O João tinha um pedido a fazer-me: que rezasse. Aceitei, com grande sentido de responsabilidade, participar neste projecto, ainda mais interessante que as investigações que ele desenvolveu na tese. Quando me perguntei interiormente se este amor ia ser fiel, lembrei-me da resposta da Madre Teresa de Calcutá: «uma família que reza unida, permanece unida».


in «Correio dos Açores», «Verdadeiro Olhar», 26-X-2014


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Encontro do Papa Francisco com o Movimento de Schoenstatt

O Papa Francisco encontrou-se ontem com o Movimento Apostólico de Schoenstatt, nas comemorações do centenário deste movimento católico. Durante mais de uma hora o Santo Padre respondeu às perguntas de algumas famílias do movimento, tendo sido esta a primeira delas:


Destaques:

O ataque à família

“A família cristã, a família…o matrimónio nunca foi tão atacado como agora, diretamente ou transversalmente. A família foi ferida. É agredida, como se fosse apenas uma forma de associação. Agora chama-se família a tudo.

Quantas famílias estão feridas? Quantos matrimónios estão desfeitos? Quanto relativismo na concepção do sacramento do matrimónio.”

As ‘novas formas de matrimónio’

“O que estão a propor não é matrimónio, é uma associação, não é matrimónio.”

As pessoas que vivem juntas e não se casam porque não têm dinheiro para fazer a festa 

"Quantas vezes encontrei aqui, na vida pastoral, pessoas que...
[pergunta o Papa] 'Porque não te casas?'
Estão a viver juntos. [explica o Papa]
'Porque não te casas?'.
[E eles respondem, diz o Papa] 'Ah..., temos que fazer a festa, não temos dinheiro...'
O social substituiu o essencial, que é a união com Deus.” 

Cursos de Preparação para o Matrimónio

“Não se pode preparar noivos para o matrimónio apenas em dois encontros ou conferência, isso é pecar por omissão.”

Vídeo de todo o encontrohttps://www.youtube.com/watch?v=hkvXit8mWgU


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sábado, 25 de outubro de 2014

Papa Bento escreve para peregrinação Summorum Pontificum

Está neste fim-de-semana a decorrer em Roma a peregrinação internacional Summorum Pontificum. O secretário geral desta peregrinação convidou o Papa Bento a participar na Santa Missa Solene na Forma Extraordinária, celebrada este Sábado pelo Cardeal Burke, na Basílica de S. Pedro. O Papa respondeu com a seguinte carta:


Benedictus XVI 
Papa emeritus 

Città del Vaticano 
10-10-2014 
Excelentíssimo Delegado-Geral, 

Finalmente encontrei tempo para lhe agradecer a sua carta de 21 de Agosto passado. Estou muito contente por o Usus antiquus agora viver em paz total na Igreja, também junto dos jovens, apoiado e celebrado por grandes Cardeais.
 

Estarei espiritualmente unidos a vós. O meu estado de 'monge enclausurado' não me permite uma presença que também seja exterior. Deixo o meu mosteiro só em casos particulares, [quando] convidado pessoalmente pelo Papa.

Em comunhão de oração e amizade.

Vosso no Senhor, 

Bento XVI

               


in wdtprs.com 


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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Relatórios dos "círculos menores" do Sínodo sobre a Família

in É o Carteiro


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Saborear a cruz - S. Rafael Arnaiz Baron, monge trapista

A cruz de Cristo! Que mais posso dizer? Não sei orar, não sei o que é ser bom, não tenho espírito religioso, pois estou cheio do mundo. Só sei uma coisa, uma coisa que enche a minha alma de alegria, apesar de me ver tão pobre de virtudes e tão rico em misérias; sei apenas que tenho um tesouro que não trocaria por nada nem por ninguém: a minha cruz, a cruz de Jesus, essa cruz que é o meu único repouso. Como explicar isto? Quem não experimentou, não pode sequer suspeitar do que se trata.

Ah, se todos os homens amassem a cruz de Cristo! Se o mundo soubesse o que é abraçar plenamente, verdadeiramente, sem reservas, em loucura de amor, a cruz de Cristo! Tanto tempo perdido em conversas, devoções e exercícios que são santos e bons, mas que não são a cruz de Jesus, não são o que há de melhor.

Pobre homem que não prestas para nada, que não serves para nada, que arrastas a tua vida, seguindo como podes as austeridades da regra, contentando-te em esconder no silêncio os teus ardores: ama até à loucura o que o mundo despreza por não conhecer, adora em silêncio essa cruz, que é o teu tesouro, sem que ninguém se aperceba. Medita em silêncio diante dela nas grandezas de Deus, nas maravilhas de Maria, nas misérias do homem. Prossegue a tua vida sempre em silêncio, amando, adorando e unindo-te à cruz. Que queres mais? Saboreia a cruz, como disse hoje de manhã o senhor bispo. Saborear a cruz!

in Escritos espirituais, 03/IV/1938 


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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Salve Regina Solene

Quando se canta a Salve Regina em latim, um canto gregoriano que qualquer Católico acaba mais tarde ou mais cedo por aprender, a melodia é sempre a mesma. Isso é óptimo porque permite que um português, um espanhol e um francês (a sequência típica) consigam rezar e cantar juntos a Nossa Senhora.

Essa melodia é a versão mais conhecida e simples que há da Salve Regina. No entanto, existe outra versão mais desenvolvida, muito bonita, que é chamada a "Salve Regina Solene".

O vídeo que segue mostra alguns seminaristas a cantarem-na. Nesta versão, os cantores usam uma técnica chamada organum. É uma técnica dos primórdios da polifonia, que consiste em suster uma nota-pedal. Metade do coro canta a melodia e a outra metade canta o texto numa nota-pedal que sofre apenas 2 ou 3 alterações ao longo da peça.

Mais um tesouro da tradição bimilenar da Igreja Católica.



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A história de um rapaz que perdeu a virgindade cedo demais

Eu perdi a minha virgindade na faculdade.

Não é uma parte do meu caminho de que me gabe ou orgulhe – longe disso. De facto, durante muito tempo mantive isto escondido e era causa de grande vergonha e embaraço. Mas é um elemento essencial da minha história, no qual experimentei pessoalmente a misericórdia de Deus para com todas as pessoas, mesmo para com o mais teimoso dos pecadores (eu).

Não foi planeado. Eu nunca fui o mais “popular” da escola. Eu era o “tipo simpático”; participava no grupo de jovens do liceu e sempre pensei que esperaria até ao casamento para “passar o limite”. Mas, como um sapo numa panela a ferver, que está inconsciente que o calor à sua volta está a aumentar, o pecado levou a melhor de mim quando baixei a guarda (São Paulo avisa-nos que “quem quer que seja que pense que está seguro deve ter cuidado para não cair”; ou, como o ‘profeta’ Han Solo diz, “não sejas presunçoso”). Estiquei a corda cada vez mais até que numa noite acabou por acontecer. 

O pecado, como diz o filósofo Peter Kreeft, “torna-nos falsos”. O pecado rouba a nossa humanidade, mata a nossa felicidade e deixa-nos como conchas vazias do nosso verdadeiro eu. O personagem Gollum de O Senhor dos Anéis personifica o efeito deteriorante que o pecado tem sobre nós. O corpo do Gollum ficou corrompido pela sua idolatria do Anel (o seu “precioso”), um objecto que foi o motivo por excelência para a sua miséria e desespero. Ele é dependente. Os seus sentidos estão enevoados e a sua visão escurecida. O pecado faz-nos o mesmo. Sexo pré-matrimonial, embora idolatrado pelo mundo e publicitado como “verdadeiro amor”, é, na verdade, o oposto, como eu pude testemunhar na primeira pessoa. Em vez de ser livre para amar eu tornei-me escravo da lúxuria. Com o intelecto escurecido e os desejos desorientados, inventei desculpas para o meu comportamento. Eu nunca estive tão longe de mim próprio e de Deus como durante aquele período da minha vida. Eu tinha medo de trazer à luz quaisquer detalhes sobre a minha relação. Então, como o Gollum, permaneci no escuro.

Mas a escuridão nunca consegue sobrepor-se à luz.

“Oh feliz culpa”! A expressão felix culpa (em latim) que dizemos na Vigilia Pascal encarna este maravilhoso paradoxo: através de alguns dos maiores males, Deus pode derramar um amor e uma misericórdia ainda maiores sobre a humanidade. São Paulo afirma isto na sua carta aos Romanos: “onde abunda o pecado, superabunda a graça” (Rm 5,20). Do pecado de Adão veio a glória de Jesus Cristo. Do meu próprio pecado e inveja, Deus, com misericórdia, limpou-me e humilhou-me durante os anos de formação que tive para me tornar no esposo que um dia viria a ser.

Durante algum tempo, porém, perdi a esperança de um final feliz para a minha história. Eu pensei que estava “manchado” ou era um “bem danificado para sempre”. Eu não sabia que a Jackie estava para vir (se eu soubesse, nunca teria saído do meu quarto). Ela tinha estado a guardar-se para o casamento, e eu tinha de confessar-lhe que eu não, que estraguei tudo, que borrei a pintura. Mas a forma como a Jackie me amava – numa forma tão pura, desinteressada e benevolente – ajudou-me na minha cura. Ela disse-me uma noite que não queria o “Bobby de 2007” ou o “Bobby de 2010”; queria o “Bobby de agora”. Já me tinha ido confessar. Já me tinha tornado numa nova criação. E já era tempo de começar a viver como tal.

A banda Mumford & Sons tem uma música no seu último album chamada “Lover of the Light”. Essa música ilustra bem como o bem destrói o egoísmo e como a beleza dispersa as trevas que escravizam os nossos corações (até o videoclip mostra um homem cego que corre da sua escuridão para a liberdade da luz). Não importa quanto tempo tenhamos vivido nas trevas, somos todos chamados a ser “Amantes da Luz (Lovers of the Light)”. 

Uma parte da minha história, que eu mantive escondida durante muitos anos, foi transformada num testemunho que agora partilho (através do apoio da Jackie) com adolescentes e jovens adultos. Uma adolescente escreveu-nos recentemente e disse que o nosso testemunho no seu grupo de Confissão convenceu-a a manter a sua virgindade, mesmo com o seu namorado a pressioná-la para que lha desse. Glória a Deus! Mesmo que só uma pessoa jovem se volte para a luz de Deus por causa do nosso humilde testemunho, isto já vale a pena.

Ninguém está totalmente perdido. Alguns dos maiores pecadores tornaram-se nos maiores santos. Deus chama-nos a todos das trevas à luz. Ele quer usar as nossas falhas e quedas para a Sua glória. Vamos dar-Lhe permissão para o fazer.

in jackieandbobby.com


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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

BFF (Best Friends Forever)




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Alguns episódios de S. João Paulo II, Papa

· Na sua última celebração do Corpus Domini a que presidiu em 2004, o Papa já não podia andar, de forma que tiveram que fixar a sua cadeira à plataforma do veículo disponível para a procissão. À sua frente, por cima do genuflexório, exibia-se o ostensório com o Santíssimo Sacramento. Pouco depois da partida, João Paulo II dirigiu-se a um dos mestres-de-cerimónias e perguntou-lhe se podia ajoelhar-se. Com delicadeza, este explicou-lhe que era demasiado arriscado, dado que o percurso era bastante acidentado e isso diminuía a estabilidade do veículo. Passados uns minutos o Papa repetiu:

- "Queria ajoelhar-me".
Responderem-lhe que esperasse até que o pavimento fosse melhor. Uns instantes depois disse:
- "Está ali Jesus, por favor!"
Os dois mestres-de-cerimónias ajudaram-no a ajoelhar-se no genuflexório. Como não conseguia manter-se nas pernas, o Papa tentou segurar-se fixando-se ao bordo, mas, quase de imediato, tiveram que o sentar de novo na cadeira. 

· Conta o Cardeal Coppa, sobre uma viagem do Papa à República Checa em 1995, quando já começava a usar bengala devido à sua saúde:
“A primeira noite daquela viagem, a seguir ao regresso da ceia com os bispos, desceu à capela diante do Santíssimo. As irmãs tinham-lhe preparado um grande genuflexório, mas preferiu rezar num dos bancos habituais. Eu acompanhava-o, esperando-o fora da capela... Na noite seguinte tive que responder a uma chamada urgente e não pude acompanhá-lo à capela. Cheguei depois, quando já estava ajoelhado. Antes de entrar ouvi como que uma música diferente, e quando abri silenciosamente a porta, ouvi como, ajoelhado no banco, cantava diante do tabernáculo. Nunca esqueci esse delicado canto, que era como um colóquio de amor com Cristo...”

· Um dia, D. Álvaro del Portillo, Prelado do Opus Dei, esperava para ser recebido em audiência por João Paulo II. Ao ouvi-lo chegar, notou que o fazia arrastando os pés. O Prelado disse-lhe: ”Como está cansado, Santidade!”. Ao que o Papa replicou de imediato: ”Se a estas horas da noite o Papa não estivesse cansado seria porque hoje não teria cumprido o seu dever”.

· Em 1994, a revista TIME nomeou João Paulo II “Homem do ano”. O seu porta-voz mostrou-lhe a primeira página da revista e o Papa voltou-a. O seu assessor mostrou-lha de novo e o Papa de voltou-a de novo. “Santidade, não gosta da revista?”, perguntou-lhe.“Talvez – disse - me agrade demasiado”.

· Em 2001 o Papa realizou uma histórica viagem à Grécia, onde pôde reunir-se com os bispos ortodoxos. Num dos encontros com o Arcebispo de Atenas, Sua Beatitude Christodoulos, João Paulo disse-lhes que tinha um grande desejo de rezar o Pai-nosso com ele em grego, e ele também aceitou e rezaram-no juntos em voz alta. Este gesto importante – há dez séculos que não acontecia algo assim – não foi improvisado; o Papa, antes da viagem, tinha recitado durante vários dias o Pai-nosso em grego, para o aprender.

in opusdei.pt


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terça-feira, 21 de outubro de 2014

O Sínodo e o homossexualismo: Papa Francisco e o Beato Paulo VI

Como parece que não há até agora nenhuma tradução, oficial ou oficiosa, para nenhuma língua civilizada afora o italiano, do relatório final do Sínodo dos Bispos (no último sábado publicado), ofereço aqui os meus dois tostões com os parágrafos referentes ao homossexualismo:
A atenção pastoral a respeito das pessoas com orientação homossexual
55. Algumas famílias passam pela experiência de possuir, entre seus membros, pessoas com orientação homossexual. A respeito dos que nos interrogam sobre quais cuidados pastorais são oportunos nestas situações, [em resposta] referimo-nos a quanto ensina a Igreja: «Não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogia, nem mesmo remota, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o Matrimônio e a família». Inobstante, os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza. «Em relação a eles, evitar-se-á todo traço de discriminação injusta» (Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações sobre os projectos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, 4).
56. É totalmente inaceitável que os pastores da Igreja sofram pressões nesta matéria, [bem como] que os organismos internacionais condicionem o auxílio financeiro aos países pobres à introdução de leis que instituam o “matrimônio” entre pessoas do mesmo sexo.
Os termos são estes e apenas estes. Não há outros parágrafos; desapareceu toda aquela história de «accettando e valutando il loro orientamento sessuale» e quetais que tanta celeuma provocou na semana passada. No lugar dela, a referência peremptória, clara e cristalina, ao ensino da Igreja: entre as uniões homossexuais e o Matrimônio não é possível estabelecer sequer uma analogia remota. Sumiu a referência às «coppie dello stesso sesso»; em seu lugar, uma referência negativa ao “matrimônio” – com as aspas no original! – «entre pessoas do mesmo sexo», que os organismos sociais não poderiam impôr como condição ao fornecimento de auxílio financeiro aos países pobres.
A mídia, naturalmente, fez o seu burlesco espetáculo: «Vaticano elimina “boas-vindas” a gays em documento final do Sínodo». Uma verdadeira piada. Ora, se as referidas “boas-vindas” forem no sentido de alterar o ensino moral da Igreja, então não as há neste documento final como não havia tampouco no primeiro. Se, ao contrário, trata-se de estar sempre de portas abertas aos pecadores, quaisquer que sejam os seus pecados, então há tantas “boas-vindas” na versão preliminar quanto no relatório definitivo. Em uma palavra: a redação é outra, e a mensagem é a mesma. Contudo, o primeiro texto dava muito mais margem para interpretações tresloucadas do que o último, e portanto é um verdadeiro bálsamo que este tenha saído do jeito que saiu.
E mais: se é regra hermenêutica básica, de qualquer discurso, que as passagens mais ambíguas e vagas sejam interpretadas à luz das mais claras, então o Relatio Synodi determina e especifica o sentido do Relatio post disceptationem na semana passada divulgado. É isso: os parágrafos 50-52 do relatório preliminar diziam exatamente o que eu disse aqui que eles diziam, qual seja,
que os homossexuais «[d]evem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza»; e ainda que, para com eles, «[e]vitar-se-á (…) qualquer sinal de discriminação injusta» (CCE 2358).
Os próprios termos do relatório final foram os que eu usei no post do blog quatro dias antes! Não, isso não significa (necessariamente…) que os cardeais consultam o Deus lo Vult! nas horas vagas para descobrir a melhor forma de redigir um documento eclesiástico. Significa, tão-somente, que o sentido dos textos da Igreja deve ser buscado em referência aos outros documentos correlatos, e não ao desiderato da mídia. Porque a Doutrina Católica, ao contrário dos mass media, não muda ao sabor do momento. Aos incréus perdoa-se que ignorem essas coisas. Os católicos, que temos Fé, não podemos nos prestar a tão deplorável espetáculo.

Uma última coisa: o Papa Francisco beatificou ontem, no Vaticano, o seu predecessor Paulo VI. Na homilia, destacou o seguinte (grifo meu):
Nesta humildade, resplandece a grandeza do Beato Paulo VI, que soube, quando se perfilava uma sociedade secularizada e hostil, reger com clarividente sabedoria – e às vezes em solidão – o timão da barca de Pedro, sem nunca perder a alegria e a confiança no Senhor.
Não sei se todos conhecem em detalhes a dramática história: uma comissão fora instituída, ainda nos tempos de João XXIII, para estudar a doutrina da Igreja referente à contracepção. A expectativa de que a Igreja flexibilizasse o Seu ensinamento, bem como a pressão para que Ela o fizesse, eram então enormes. De fato,
na primavera de 1967, quatro documentos da comissão vazaram e foram publicados em inglês e francês. Estes documentos revelavam que a maioria dos membros estava a favor de mudar o ensinamento tradicional sobre a anticoncepção e que tinham recomendado isso ao Papa.
A imprensa fez uma festa com os documentos que vazaram. Os católicos do mundo inteiro receberam a impressão de que a Igreja preparava uma “mudança em seu magistério” sobre a questão da anticoncepção. Consequentemente, as esperanças e expectativas falsas se fortaleceram.
[...]
Os documentos deixam claro que, desde o começo da expansão de tal comissão, sob o governo papal de Paulo VI, o secretário-geral da comissão, o sacerdote dominicano Henri de Riedmatten, de acordo com outros membros de igual opinião, estava decidido a persuadir o Papa para que mudasse o ensinamento da Igreja (no referente à anticoncepção).
Quando se votou, em 20 de junho de 1966, dos 15 bispos, membros da comissão que estavam presentes, 9 votaram a favor da mudança. Além disso, 12 dos 19 especialistas teólogos apoiaram a mudança, assim como quase todos os conselheiros legais. Tristemente, inclusive o teólogo pessoal de Paulo VI, Dom Carlo Colombo, deixou claro que ele achava que poderia haver métodos anticoncepcionais em consonância com a tradição moral da Igreja.
No entanto, para a maior glória de Deus, o que veio foi a Humanae Vitae. E o resto da história nós já conhecemos.
Será que ela não se repete? Vejo (P.S.não fui o único e nem o primeiro a vê-lo) um notável paralelo entre a contracepção na década de 60 e o homossexualismo nos dias de hoje, bem como entre as expectativas anteriormente provocadas nos católicos do século passado e estas, que a mídia contemporânea está tão empenhada em semear entre os descendentes daqueles. Haverá o mesmo paralelo entre Paulo VI e o Papa Francisco? A beatificação de ontem me deu essa esperança. Que o novo Servo de Deus possa olhar com particular zelo pela Igreja que ele precisou capitanear “às vezes em solidão”. Que a sua coragem e clarividência inspirem o Papa Francisco; que ele, pela intercessão do Beato Paulo VI, possa ser um timoneiro prudente – ainda que incompreendido… – a guiar a Igreja de Cristo nessas águas tumultuosas dos dias correntes.

Jorge Ferraz in Deus lo vult Blog


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A Bíblia tão perto e tão longe de nós...

A única forma de compreendermos correctamente a Bíblia e termos acesso à sua verdadeira essência é lendo-a à luz da tradição sagrada.

Quando lemos a Bíblia Sagrada, estamos a ler algo dito ou escrito (inspirado) por Deus? A resposta é: depende! Se abrirmos uma Bíblia em português, inglês, francês, alemão, espanhol etc., certamente encontrar-nos-emos a centenas de quilómetros de distância do que Deus realmente falou ou revelou pelas Escrituras. Fiquemos só com o Novo Testamento. E se soubermos grego? Bem, se formos capazes de dominar o grego bíblico ou koiné, língua na qual foi escrito o Evangelho, então, estaremos apenas a quilómetros de distância do que Deus quis revelar, porque Jesus não se exprimia em grego, mas em aramaico.

Mesmo que soubéssemos perfeitamente o grego e o aramaico antigos, ainda assim, haveria uma distância considerável entre a revelação divina e nosso entendimento dela. Por quê? Porque os hagiógrafos, vale dizer, são Mateus, são Marcos, são Lucas e são João também interpretaram a mensagem soteriológica de Jesus e, segundo o adágio, tradutore traditori (cada tradutor é um traidor).

Como sair desse aparente labirinto? A única forma de compreendermos correctamente a Bíblia e termos acesso à sua verdadeira essência é lendo-a à luz da Sagrada Tradição. Tem de haver uma simbiose perfeita entre essas duas vertentes da palavra de Deus: a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura.

Bem. Tranquilizemo-nos. Na prática, podemos sim saborear lindos versículos Bíblicos no nosso próprio idioma. Mas temos de contar com edições autorizadas pela Igreja Católica, com o imprimatur e, principalmente, providas de bons comentários.

Ah! Não fosse a Igreja católica, ao ler a Bíblia, sujeitar-nos-íamos aos devaneios da nossa imaginação. O catolicismo encurta a distância quilométrica entre o leitor da Bíblia e a mensagem autêntica de Jesus. Isto ocorre porque a Igreja Católica recebeu esta missão do próprio Deus. O magistério eclesiástico, exercido mormente pelo Papa, apresenta ao mundo o modo correcto de entender e ler a bíblia. 

Edson Sampel in Zenit


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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Discurso do Papa Francisco no final do Sínodo sobre a Família

Muitos comentadores, ou pessoas que falam, imaginaram ver uma Igreja em atrito, onde uma parte está contra a outra, duvidando até mesmo do Espírito Santo, o verdadeiro promotor e garante da unidade e da harmonia na Igreja. O Espírito Santo que ao longo da história sempre conduziu a barca através dos seus Ministros, mesmo quando o mar era contrário e agitado e os Ministros infiéis e pecadores.

E, como ousei dizer-vos isto no início do Sínodo, era necessário viver tudo isto com tranquilidade, com paz interior, mesmo porque o Sínodo se desenvolve cum Petro et sub Petro, e a presença do Papa é garantia para todos.

Falemos um pouco do Papa, agora, na relação com os bispos (risos). 

Assim, a missão do Papa é a de garantir a unidade da Igreja; é o de recordar aos fiéis o seu dever em seguir fielmente o Evangelho de Cristo; é o de recordar aos pastores que o seu primeiro dever é o de nutrir o rebanho – nutrir o rebanho – que o Senhor lhes confiou e de procurar acolhê-lo – com paternidade e misericórdia e sem falso medo – as ovelhas perdidas. Enganei-me, disse acolher. É ir buscá-las.

Portanto, a Igreja é de Cristo – é a sua esposa – e todos os bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, têm a missão e o dever de guardá-la e servi-la, não como donos, mas como servos.

O Papa, neste contexto, não é o senhor supremo, mas sim um supremo servo – o “servus servorum Dei”; o garante da obediência e da conformidade da Igreja à vontade de Deus, ao Evangelho de Cristo e à Tradição da Igreja, deixando de lado todo arbítrio pessoal, mesmo sendo – por vontade do próprio Cristo – o “Pastor e Doutor supremo de todos os fiéis” (Can. 749) enquanto gozando “da potestade ordinária que é suprema, é plena, imediata e universal na Igreja” (cf. Cann. 331-334).

Queridos irmãos e irmãs, agora temos ainda um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades e inumeráveis desafios que as famílias enfrentam; dar respostas aos tantos desencorajamentos que circundam e sufocam as famílias.

adaptado de news.va

Discurso completo: 


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domingo, 19 de outubro de 2014

Resposta ao artigo do Pe. Miguel Almeida SJ sobre o casamento

Escreveu o Pe. Miguel Almeida SJ um artigo no jornal Observador versando a questão dos “divorciados recasados”.

Segundo o que me parece, esse texto apresenta alguns equívocos e más-interpretações que podem causar (e já causaram) confusão e perplexidade nos fiéis católicos, pelo que se torna necessária uma resposta a alguns dos argumentos apresentados.

Sagrada Escritura

Diz o Pe. Miguel que no Evangelho de Mateus foi introduzida uma excepção que possibilita o divórcio no caso do adultério da mulher:

“Se alguém repudiar a sua mulher – excepto em caso de adultério – e casar com outra, comete adultério” (Mt 19, 9; cf. Mt 5, 32)

Estranhamente o Pe. Miguel começa o seu texto com a seguinte frase: “O casamento cristão é indissolúvel.” Mas logo se apressa a tentar mostrar uma possível excepção à regra. Ficamos sem saber se realmente o casamento é indissolúvel ou se é solúvel em determinados casos, como seria o adultério de um dos cônjuges, justa-causa para o divórcio. As duas coisas não podem co-existir, são mutuamente exclusivas.

Analisando o texto de Mateus, em grego, percebemos que a palavra traduzia por adultério (para se referir à acção da mulher) é πορνείᾳ (porneia). Enquanto na segunda referência a adultério a palavra é μοιχᾶται (do verbo μοιχάομαι, que quer dizer “cometer adultério”; em latim é “mœchatur”).

Que estranho, havia duas palavras para adultério? Bem, na realidade adultério não é a melhor tradução para “porneia”, uma melhor seria “fornicação”(de facto a Vulgata usa “fornicationem”), “prostituição” “imoralidade sexual”, “incesto”, “relação anti-natural”…

Em muitos casos a tradução de "porneia" é feita com “união ilegítima” ou “falso matrimónio”. Isto quer dizer que apenas uma união inválida desde o começo poderia permitir que se repudiasse a mulher. Por exemplo um caso de incesto, em que a primeira união seria nula, apesar de aparentemente ter existido.

Existe também a questão filológica. A frase diz “μὴ ἐπὶ πορνείᾳ”, e a palavra “μὴ” pode ser traduzida por “nem sequer”. Seria então um reforço da indissolubilidade do matrimónio e não uma excepção.

Isto estaria mais concordante com a reacção dos discípulos no versículo seguinte, onde mostrando a sua perplexidade perante esta “dureza” da lei apresentada por Jesus dizem: “Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!” (Mt 19, 10)

Remeto mais informações para a nota explicativa da Bíblia de Jerusalém, no fim deste texto (A).

Em relação à “excepção paulina”, não pode comparar-se aos casos dos católicos “divorciados e recasados”. O casamento misto é permitido para um católico que quer casar com uma mulher que não é católica (ou vice-versa). Para evitar que viva em concubinato, a Igreja permite que se case, mas não pode ser um sacramento porque apenas um dos dois é baptizado. O privilégio paulino dissolve o casamento natural (misto) em ordem a um casamento sacramental.

Padres da Igreja

Os Padres da Igreja, mais do que entrar na exegese da gramática do Novo Testamento, interrogaram-se sobre se, por causa dessa passagem, seria possível a separação entre o homem e a mulher. Mas nunca consideram a possibilidade de considerar legítima uma segunda união, sendo a anterior ainda válida, e muito menos o acesso aos Sacramentos. Remeto alguns textos dos Padres da Igreja, incluindo o referido S. Basílio, para o fim do texto (B).

A tradição ininterrupta da Igreja desta matéria não deixa grande margem para dúvidas neste texto do Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, Cardeal Muller, que tem ainda o bónus de explicar bem os erros da doutrina Ortodoxa ao permitir “recasamentos”:

«Os Padres da Igreja e os Concílios constituem sucessivamente um importante testemunho para o desenvolvimento da posição eclesiástica. Segundo os Padres as instruções bíblicas são vinculadoras. Eles não admitem as leis civis sobre o divórcio considerando-as incompatíveis com o pedido de Jesus. A Igreja dos Padres, em obediência ao Evangelho, rejeitam o divórcio e o segundo matrimónio, em relação a esta questão o testemunho dos Padres é inequívoco.

Na época patrística os crentes separados que se tinham voltado a casar civilmente não eram readmitidos aos sacramentos nem sequer depois de um período de penitência. Alguns textos patrísticos deixam entender que os abusos nem sempre eram rigorosamente rejeitados e que por vezes foram procuradas soluções pastorais para raríssimos casos-limite.

Mais tarde nalgumas zonas, sobretudo por causa da crescente interdependência entre Igreja e Estado, chegou-se a compromissos maiores. No Oriente este desenvolvimento prosseguiu o seu curso e levou, sobretudo depois da separação da Cátedra de Pedro, a uma prática cada vez mais liberal. Hoje nas Igrejas ortodoxas existe uma variedade de causas para o divórcio, que normalmente são justificadas com referência à oikonomia, a clemência pastoral para cada um dos casos difíceis, e abrem o caminho a um segundo ou terceiro matrimónio com carácter penitencial. Esta prática não é coerente com a vontade de Deus, claramente expressa pelas palavras de Jesus acerca da indissolubilidade do matrimónio, e isto representa certamente uma questão ecuménica que não deve ser subestimada.

No Ocidente, a reforma gregoriana contrastou as tendências de liberalização e voltou a propor o conceito originário das Escrituras e dos Padres. A Igreja católica defendeu a absoluta indissolubilidade do matrimónio até à custa de grandes sacrifícios e sofrimentos. O cisma da «Igreja da Inglaterra», que se separou do Sucessor de Pedro, aconteceu não por causa de diferenças doutrinais, mas porque o Papa, em obediência à palavra de Jesus, não podia favorecer o pedido do rei Henrique VIII para a dissolução do seu matrimónio.

O Concílio de Trento confirmou a doutrina da indissolubilidade do matrimónio sacramental e esclareceu que ela corresponde ao ensinamento do Evangelho (cf. DH 1807). Por vezes afirma-se que a Igreja tolerou de facto a prática oriental, mas isto não corresponde à verdade. Os canonistas sempre falaram de uma prática abusiva, e há testemunhos acerca de alguns grupos de cristãos ortodoxos que, tendo-se tornado católicos, tiveram que assinar uma confissão de fé na qual era feita referência explícita à impossibilidade da celebração de segundas ou terceiras núpcias.» in L'Osservatore Romano, 22/X/2013

Concílio de Niceia

Diz o autor do texto que o Concílio de Niceia teria permitido a comunhão dos divorciados recasados, contra a vontade dos “puros”. Cabe esclarecer que os “puros” não são os que defendiam a impossibilidade do “recasamento” quando o anterior vínculo ainda existia, mas sim os novacianos: um grupo de hereges que se recusava a aceitar o pedido de perdão dos ‘lapsi’ (os que tinham realizado sacrifícios aos deuses pagãos durante as perseguições do Império Romano aos cristãos).

Esse célebre cânon 8 de Niceia refere-se ao “recasamento” de pessoas que tinham enviuvado, e não de pessoas cujo cônjuge continuava vivo. Os novacianos, os tais puros, eram contra o casamento de viúvos e essa doutrina foi condenada pelo Concílio.


E também por um padre jesuíta, Gilles Pelland SJ (professor na Universidade Gregoriana): http://www.ewtn.com/library/Marriage/ANTDIVRC.HTM

O Pe. Gilles Pelland é um dos maiores investigadores do mundo nesta matéria, escreveu um livro chamado: “La pratica della Chiesa antica relativa ai fedeli divorziati risposati”.

Ratzinger

Diz o Pe. Miguel Almeida que Ratzinger, nos anos 70, defendeu a tese de Kasper. Este argumento é estranho. Será que o objectivo é ter Joseph Raztinger como fonte de autoridade? Se é esse o caso seria mais útil consultar o que disse o Ratzinger enquanto Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e depois Papa em relação a esta matéria.

A posição do Cardeal Ratzinger é muito clara, é contrária à de Kasper, e está aqui bem definida: 
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19980101_ratzinger-comm-divorced_po.html

Aliás, também o S. João Paulo II, Papa, combateu fortemente as propostas de Kasper, e outros, que tentavam mudar a doutrina (ou a praxis) da Igreja no que toca ao casamento.

A “solução” Kasper

Escreve o Pe. Miguel que “Kasper é peremptório” quando diz que a possibilidade de comungar seria apenas “nalguns casos concretos, bem determinados”.

Mas se estamos a falar de casos assim tão exclusivos porquê esta necessidade de tentar transformar um Sínodo sobre a Família, que devia apresentar reflexões sobre o duro ataque que a Família está a sofrer na sociedade secularizada, numa solução para essas excepções concretas?

E se isso fosse aprovado não continuariam milhares e milhares de católicos, que não se encaixam nesses critérios, a ser “excluídos” da comunhão? O discurso sentimentalista da misericórdia (desligada da verdade, da razão e em última análise do amor) não se aplicaria também aos muitos que ficariam de fora dessa benesse? Tanto seriam esses “discriminados” e “excluídos da Igreja” como hoje o são os que ainda não podem comungar.

A resposta a isto é clara: A Igreja não discrimina ninguém. A Igreja não exclui ninguém. Cristo veio para todos, e todos são bem-vindos na Sua Igreja. Aliás é nosso dever ajudar a que isso aconteça, ao crescimento do Reino de Deus já neste mundo. O primeiro dever da Igreja, e portanto de cada um de nós, é a salvação das almas.

Mas a Igreja, como Mãe extremosa, não pode enganar os seus filhos. Não lhe pode dar pedras quando lhe pedem pão (Lc 11, 11.13). A liberdade implica responsabilidade. O que esta tese faz é desligar as duas coisas: já ninguém é responsável pelos seus actos, parece que fazer o bem ou fazer o mal é indiferente.

Por outro lado, esta proposta parece a engenharia social que é produzida no Parlamento, por exemplo para aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo: “Não, é mesmo só o casamento, a adopção nunca! Isso seria impensável!” Aprova-se o casamento e passado pouco tempo estamos a lutar com todas as armas contra a adopção. Neste caso os “alguns casos concretos” rapidamente se tornariam na regra e não na excepção.

Kasper e Burke não “representam facções”, como se as duas teses tivessem a mesma validade. Kasper representa os que se acham mais misericordiosos do que vinte séculos de santos (já para não falar do próprio Senhor), passando a ferro os ensinamentos de Jesus e da Igreja durante 2000 anos. E Burke representa os mesmos ensinamentos sem alterar um iota, como diz o próprio Jesus (Mt 5, 18).

João Silveira

(A) Nota de la Biblia de Jerusalén a Mt 19, 9:
Dada la forma absoluta de los paralelos, Mc 10, 11s; Lc 16, 18 y 1 Co 7, 10s, es poco verosímil que los tres hayan suprimido una cláusula restrictiva de Jesús, y más probable, en cambio, que uno de los últimos redactores del primer evangelio la haya añadido para responder a una determinada problemática rabínica (discusión entre Hiller y Sammai sobre los motivo que legitimizan el divorcio), por lo demás evocada por el contexto, v. 3, que podía preocupar al medio judeo-cristiano para el que escribía.

Tendríamos, pues, aquí una decisión eclesiástica de alcance local y temporal, como lo fue la del decreto de Jerusalén concerniente a la región de Antioquia, Hch 15, 23-29. El sentido de porneia orienta la investigación en la misma dirección.  Algunos quieren ver en este término la fornicación en el matrimonio, es decir, el adulterio, y encuentran aquí la dispensa para divorciarse en tal caso.; así las iglesias ortodoxas y protestantes. Pero e este sentido se había esperado otro término, moijeia.

En cambio, porneia, en el contexto, parece tener el sentido técnico de la zenût o “prostitución” de los escritos rabínicos, dicha de toda unión convertida en incestuosa por un grado de parentesco prohibido según la Ley, Lv 18. Uniones de éstas, contraídas legalmente entre paganos o toleradas por los mismos judíos entre los prosélitos, debieron de causar dificultades, cuando estas personas se convertían, en medio judeo-cristianos legalistas como el de Mt; de ahí la consigna de dissolver semejantes uniones irregulares que en definitiva no eran sino matrimonio nulos.

Otra solución considera que la licencia concedida por la cláusula restrictiva no sea la del divorcio, sino la de la «separación» sin nuevo matrimonio. Tal institución era desconocida en el Judaísmo, pero las exigencias de Jesús han dado lugar a más de una solución nueva, y ésta concretamente la supone ya claramente San Pablo en 1 Co 7, 11.

(B) 1.  Características  de  la  doctrina  sobre  la  indisolubilidad  del  matrimonio  en  los  tres  primeiros siglos.

En primer lugar se va contra las costumbres y legislaciones paganas, en las cuales estaba anclado el principio del divorcio. En segundo lugar tenemos la unanimidad de todos los padres y autores eclesiásticos, lo mismo que en  oriente,  que  en  occidente.  San  Justino,  Atenágoras,  Clemente  de Alejandría  son  de  todo  punto explícitos.  En  caso  de  adulterio  los  conyugues  se  pueden separar pero  no  puede  haber  segundo matrimonio (Hermas y Tertuliano).

2.  La indisolubilidad en los padres orientales de los siglos IV y V.
Basilio, en la 1ª carta canónica, afirma que el marido adúltero que es abandonado por su mujer y vive luego  con  otra  es  digno  de  indulgencia;  la  mujer  que  vive  con  este  hombre  abandonado  no es condenada y Basilio se pregunta si se la puede llamar adúltera. La interpretación divorcista legitima por este texto de Basilio el divorcio. Pero una lectura más atenta muestra que lo que se está diciendo es  que  ni  el  uno  ni  la  otra  pueden  ser  castigados  como  adúlteros,  por  no  haber  canon  penitencial. Tampoco puede probarse que Basilio autorice un segundo matrimonio: no lo castiga como adulterio, lo que es diferente. Basilio, en la 2ª carta canónica, afirma que el marido debe echar de su casa a la mujer infiel, para no  mancharse. La lectura divorcista saca de aquí la legitimidad del segundo matrimonio, sin que Basilio haga la menor alusión a ello. Basilio, en Moralia, cuando trata del deber de los casados, trata ex profeso la absoluta indisolubilidad del matrimonio. Indica las causas que permitirían la separación: adulterio e impedimento por causa de
impiedad.

Gregorio Nacianzeno, comentando Mt 19,1-12, señala la diferencia que existe entre la ley civil de su tiempo y la ley de Cristo. Apoyado en la palabra de Cristo, Gregorio permite al marido despachar a su mujer  cuando  ésta  es  adultera.  La  lectura  divorcista  aprovecha  para  decir  que  de  ello  se sigue  las segundas nupcias, cuando Gregorio ni las menciona.

Juan Crisóstomo, en Homilia 19 sobre la carta primera a los Corintios, declara que por adulterio de la mujer queda disuelto el matrimonio y que el marido deja de ser marido. La lectura divorcista se agarra a este texto para legitimizar las segundas nupcias; no obstante, el texto no las menciona. Además ¿de qué  disolución  se  trata?  En  aquel  tiempo  los  términos  (“disuelto”)  no  están fijados;  no  podemos aplicar la semántica actual a la de aquel tiempo. En otras partes, el Crisóstomo afirma claramente que la mujer repudiada por la causa que sea no puede casarse de nuevo; ligada a su esposo, sigue siendo, mientras viva, su mujer (cf. In Math., hom 17, 4, PG 57, 259; In Math., hom 62, 1-2, PG 58, 596; in Gen., hom 26, 2, PG 53, 232).

a.  ¿qué significado tienen los textos que han sido objeto de una lectura divorcista en el conjunto de la enseñanza de los padres orientales de esta época?
Son  un  número  muy  reducido  de  textos  que  permiten  una  lectura  divorcista,  y  además ambiguos, frente a una amplia mayoría de textos claros que la rechazan por completo.

b.  ¿en qué se basa la lectura divorcista de esos textos?
Son  textos  que  su  ambigüedad  permite  esta  lectura,  la  cual  es  abusiva;  en  un  segundo momento esa ambigüedad es completada con las costumbres sociales pagana de la época.

c.  ¿en qué se basa la lectura no divorcista de estos textos?
Se basa en que, en ningún momento, ninguno de estos textos alude explícita o implicitamente a las segundas nupcias. 

3.  La indisolubilidad de los padres occidentales de los siglos IV y V.  
Los textos de Hilario y Lactancio no son concluyentes respecto de si el matrimonio queda roto por el adulterio de forma que proporcione al cónyuge inocente facultad de contraer nuevo matrimonio. 
El Ambrosiaster concede al marido que se separa de su mujer por causa de adulterio, derecho a casarse de nuevo.

Ambrosio, Jerónimo, Agustín, Inocencio I prohíben absolutamente las segundas nupcias. Ambrosio, sin hablar especialmente del caso del caso de adulterio, desaprueba de forma absoluta todo divorcio.  El  matrimonio  de  la  mujer  repudiada,  aunque  lo  permite  la  ley  imperial,  debe  ser  mirado
como adulterino.

Jerónimo, que trata la cuestión del adulterio en relación con el matrimonio da la siguiente solución: el cónyuge inocente está autorizado a despachar al culpable; pero le está prohibido, so pena de cometer adulterio, contraer nuevo matrimonio. No importa que las leyes civiles permitan el divorcio y el nuevo casamiento de los divorciados: aliae sunt leges Caesarum, aliae Christi.
Agustín, en su De coniugiis adulterinis, que está enteramente dedicado a la relación entre el adulterio con la indisolubilidad del vínculo matrimonial, argumenta la indisolubilidad del matrimonio a partir de la  unión  de  Cristo  con  la  Iglesia,  que  es  unión  de  todo  indisoluble.  Permite  la  separación  de  los cónyuges en caso de adulterio, solamente.

Inocencio I, en su carta a Exuperio de Tolosa, califica el segundo matrimonio contraído de adulterino. Deben ser separadas de la comunión eclesiástica todas las personas que, en vida de su primer cónyuge, proceden  a  nuevo  matrimonio.  El  repudium,  permitido  por  las  leyes  imperiales,  no debe  por  tanto extenderse en los cristianos más allá de la separación de los cuerpos.

a.  ¿Qué significado tienen los textos que han sido objeto de una lectura divorcista en el conjunto de la enseñanza de los padres occidentales de esta época?
Apenas tienen significado; son un número muy reducido de textos, además ambiguos; el del Ambrosiaster, que no es ambiguo, es el único texto en la tradición que concede al marido que se separa de su mujer por causa de adulterio el derecho a casarse de nuevo.

Resumo de H.  Crouzel,  La  indisolubilidad  del matrimonio en los padres de la Iglesia, en El vínculo matrimonial ¿divorcio o indisolubilidad?


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