sábado, 20 de janeiro de 2018

March for Life 2018: a multidão contra o aborto que os 'media' insistem em ignorar



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O Relatório Final do Sínodo Extraordinário dos Bispos de Outubro de 1985 sobre o Concílio Vaticano II (2ª parte)

Depois da 1ª parte, concluo assim com a publicação desta 2ª parte dos excertos do Relatório Final (RF), à qual acrescentei um Posfácio, o artigo com o título acima.

II. Temas Particulares do Sínodo

«[…] uma atenção especial deve ser prestada ao Fenómeno do secularismo. Sem qualquer dúvida o Concílio afirmou a legítima autonomia das realidades temporais (GS, 36 e noutra parte). Neste sentido, uma secularização correctamente entendida deve ser admitida. Mas nós estamos a falar de algo totalmente diferente: do secularismo que consiste numa visão autonomista do homem e do mundo e que deixa de lado a dimensão do mistério, de facto negligencia-a e nega-a. Este imanentismo é uma redução da visão integral do homem, uma redução que leva não à sua verdadeira libertação, mas a uma nova idolatria; à escravidão das ideologias; a uma vida em redutoras e frequentemente opressivas estruturas deste mundo» (RF, II, A 1).

«A primeira missão da Igreja, sob o impulso do Espírito Santo, é pregar e testemunhar as boas e alegres notícias da eleição, da misericórdia e da caridade de Deus que se manifestam na história da salvação, a qual, através de Jesus Cristo, atingem o seu cume na plenitude dos tempos e que se comunicam e oferecem a salvação ao homem por virtude do Espírito Santo. Cristo é a luz da humanidade!» (RF, II, A 2).

«Toda a importância da Igreja deriva da sua conexão com Cristo. […] Nós não podemos substituir uma visão falsa e unilateral da Igreja como puramente hierárquica por uma nova concepção sociológica também ela unilateral» (RF, II, A 3).

«[…] o Concílio proclamou a vocação de todos os fieis à santidade (cf. LG 5). […] Nos nossos dias, sobretudo, quando tantas pessoas sentem um vazio interior e uma crise espiritual, a Igreja tem de preservar e energicamente promover o sentido da penitência, da oração, da adoração, do sacrifício, da entrega de si, da caridade e da justiça. […] Hoje, temos uma tremenda necessidade de santos, através de quem precisamos de implorar a Deus assiduamente» (RF, II, A 4).

«[…] a pregação do Evangelho está entre os principais deveres da Igreja, e de modo especial dos bispos, e hoje em dia isto assume a maior importância (cf. LG 25)» (RF, II, B a) 1).

«Para esta Constituição [a Dogmática Dei Verbum] também é necessário evitar uma leitura parcial. Em particular, a exegese do significado original da Sagrada Escritura, muito altamente recomendada pelo Concílio (cf. DV 12), não pode ser separada da tradição viva da Igreja (cf. DV 10). A falsa oposição entre responsabilidades doutrinais e pastorais tem de ser evitada e ultrapassada. De facto, a verdadeira intensão do trabalho pastoral consiste em realizar a verdade da salvação e torná-la concreta, a qual é, em si mesma, válida para todos os tempos. Como verdadeiros pastores, os bispos devem indicar o caminho certo ao rebanho; fortalecer a fé do rebanho; manter os perigos longe dele» (RF, II, B a) 1).

«Assim, os bispos são não apenas os únicos mestres dos fieis, mas arautos da fé que leva novos discípulos a Cristo (cf. LG 25). A evangelização é o primeiro dever não só dos bispos, mas também dos padres e dos diáconos; realmente, de todos os cristãos. Hoje, por toda a parte na Terra a transmissão da fé e dos valores morais aos jovens, derivados do Evangelho, está em perigo. Frequentemente, o conhecimento da fé e a aceitação da ordem moral são reduzidas ao mínimo. Em consequência, é requerido um novo esforço na evangelização e numa integral e sistemática catequese» (RF, II, B a) 2).

«Com alegria reconhecemos o que foi feito pelos teólogos para elaborar os documentos do Concílio Vaticano II e para ajudar no sentido da sua fiel interpretação e frutuosa aplicação no período pós-conciliar. Mas por outro lado, lamentamos que as discussões teológicas dos nossos dias tenham ocasionado por vezes confusão entre os fieis. Por conseguinte, a comunicação e o diálogo recíproco entre os bispos e os teólogos são necessários para a edificação da fé e sua mais profunda compreensão» (RF, II, B a) 3).

«Muitos [dos bispos sinodais] expressaram o desejo de que fosse composto um catecismo ou compêndio de toda a doutrina Católica respeitante tanto à fé como à moral, que pudesse ser, como [sempre] foi, um ponto de referência para os catecismos ou compêndios que são preparados nas várias regiões. A apresentação da doutrina deve ser bíblica e litúrgica. Tem de ser uma sólida [sound, no original] doutrina, adaptada à vida presente dos cristãos» (RF, II, B a) 4).

«A renovação litúrgica não pode ser limitada a cerimónias, ritos, textos, etc. A participação activa, tão aumentada, felizmente, depois do Concílio, não consiste apenas na actividade exterior, mas acima de tudo na participação interior e espiritual, em vívida e frutuosa participação no mistério pascal de Jesus Cristo (cf. SC 11). É evidente que a liturgia tem de favorecer o sentido do sagrado, realçando-o com brilho. Tem de estar permeada pelo espírito de reverência, adoração e glória de Deus» (RF, II, B b) 1).

«Os bispos deveriam não meramente corrigir os abusos, mas deveriam também explicar claramente a toda a gente o fundamento teológico da disciplina sacramental e da liturgia. A catequese deve novamente tornar-se uma via que leva à vida litúrgica (catequese mistagógica), como era o caso nos começos da Igreja. Os futuros padres deveriam aprender a vida litúrgica de uma maneira prática, assim como saberem teologia litúrgica» (RF, II, B b) 1).

«[…] a eclesiologia de comunhão não pode ser reduzida a puras questões organizacionais ou a problemas simplesmente relacionados com poderes. Não obstante, a eclesiologia de comunhão é também o fundamento da ordem na Igreja e especialmente de um correcto relacionamento entre unidade e pluriforma [pluriformity no original] na Igreja» (RF, II, C 1).

«[…] mas é necessário distinguir pluriforma de pluralismo puro. Quando a pluriforma é verdadeiro enriquecimento e com ela transporta plenitude, constitui verdadeira catolicidade. O pluralismo de posições opostas [em questões] fundamentais, ao contrário, leva à dissolução, destruição e perda de identidade» (RF, II, C 2).

«O espirito colegial é a alma da colaboração entre os bispos ao nível regional, nacional e internacional. Acção colegial, no sentido estrito, implica a actividade de todo o Colégio, junto com a sua Cabeça, sobre toda a Igreja. Na sua máxima expressão encontra-se num Concílio Ecuménico. Em toda a questão teológica respeitante à relação entre o Primado [do Pontífice Romano] e o Colégio dos bispos, não pode fazer-se uma distinção entre o Pontífice Romano e os bispos considerados colectivamente, mas antes entre o Pontífice Romano [«só»] e o Pontífice Romano junto com os bispos (LG, Nota Explicativa Prévia, 3), porque o Colégio existe com a sua Cabeça e nunca sem ela - o sujeito do supremo e pleno poder em toda a Igreja (LG 22)» (RF, II, C 4).

«Nós os bispos, desejamos ardentemente que a comunhão incompleta já existente com as Igrejas não-Católicas e comunidades, possa, com a graça de Deus, chegar ao ponto da plena comunhão» (RF, II, C 7).

«O diálogo [ecuménico] deve ser espiritual e teológico. O movimento ecuménico é favorecido de modo especial pela oração mútua. O diálogo é autentico e frutuoso se apresentar a verdade com amor e fidelidade com respeito à Igreja. Neste caminho, o diálogo ecuménico leva a que a Igreja seja vista mais claramente como sacramento da unidade» (RF, II, C 7).

«[…] nós afirmamos a grande importância e oportunidade da Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Ao mesmo tempo, contudo, nós notamos que os sinais do nosso tempo são, em parte, diferentes dos do tempo do Concílio, com maiores problemas e angústia» (RF, II, D 1).

«[…] a relação entre a história humana e a salvação é para ser explicada à luz do mistério pascal. Certamente a teologia da cruz não exclui de todo a teologia da criação e incarnação, mas como é claro, pressupõe-na. Quando nós cristãos falamos da cruz, não merecemos ser rotulados de pessimistas, mas antes fundamentamo-nos sobre o realismo da esperança cristã» (RF, II, D 2).

«A partir desta perspectiva pascal que afirma a unidade da cruz e da ressurreição, descobre-se o significado verdadeiro - e o falso - do assim chamado “aggiornamento”. Uma fácil acomodação [adaptação ou compromisso: accomodation, no original] que poderia levar à secularização da Igreja é de excluir. Também de excluir, é um fechamento imóvel sobre si mesma da comunidade dos fieis. Afirmada em vez disso, é uma abertura missionária para a salvação integral do mundo. […] Mas a salvação integral é obtida só se estas realidades humanas forem purificadas e depois elevadas pela graça e familiaridade com Deus, através de Jesus Cristo, no Espírito santo» (RF, II, D 3).

«A partir desta perspectiva nós descobrimos também o princípio teológico para o problema da inculturação. Porque a Igreja é comunhão, a qual junta diversidade e unidade estando presente através do mundo, ela toma de cada cultura tudo o que encontra de valor positivo. Contudo a inculturação é diferente de uma simples adaptação exterior, porque significa a íntima transformação de autênticos valores culturais pela sua integração no Cristianismo de variadas culturas humanas» (RF, II, D 4).

«O Concilio Vaticano II afirmou qua Igreja Católica não recusa nada do que é verdadeiro e santo nas religiões não-Cristãs. […] O Concílio também afirmou que Deus não nega a possibilidade de salvação a ninguém de boa-vontade (LG 16)» (RF, II, D 5).

«As possibilidades concretas de diálogo nas várias regiões dependem de muitas circunstâncias concretas. Tudo isto é também verdade para o diálogo com os não-crentes. O diálogo não deve opor-se à missão. O diálogo autêntico tende a trazer a pessoa humana a abrir-se e a comunicar a sua inferioridade [inferiority no original; gralha em vez de interiority, interioridade?] àquele com quem ele está falando. Mais ainda, todos os Cristãos receberam de Cristo a missão de fazer de todos os povos discípulos de Cristo (Mt 28,18). Neste sentido Deus pode usar o diálogo entre Cristãos e não-Cristãos e entre Cristãos e não-crentes como caminho para comunicar a plenitude da graça» (RF, II, D 5).

«A Igreja deve profeticamente denunciar toda a forma de pobreza e opressão e por toda a parte defender e promover os fundamentais e inalienáveis direitos da pessoa humana. Isto é sobretudo o caso onde esteja em questão a defesa da vida humana desde o momento do seu início exacto; da sua protecção de agressores em cada circunstância; e da sua promoção efectiva em todos os aspectos» (RF, II, D 6).

«O Sínodo expressa a sua comunhão com aqueles irmãos e irmãs que sofrem perseguição por causa da sua fé e que sofrem devido à promoção da justiça; o Sínodo eleva orações a Deus por eles» (RF, II, D 6).

«A missão salvífica da Igreja relativamente ao mundo deve ser entendida como um todo integral. Embora seja espiritual, a missão da Igreja envolve a promoção humana, mesmo em aspectos temporais. Por esta razão a missão da Igreja não pode ser reduzida a um monismo, não importando como este é entendido. Nesta missão existe certamente uma clara distinção – mas não uma separação – entre os aspectos naturais e os sobrenaturais. Esta dualidade não é um dualismo. É assim necessário pôr de lado as falsas e inúteis oposições entre, por exemplo, a missão espiritual e a “diaconia” [13] pelo mundo» (RF, II, D 6).

«Na conclusão desta assembleia, o Sínodo, das profundezas do nosso coração, dá graças a Deus Pai, por Seu Filho, no Espírito Santo pela maior graça deste século [XX], isto é o Concílio Vaticano II» (RF, II, D 7).

«Nós bispos, todos nós, juntamente com Pedro e sob a sua chefia, esforçámo-nos por compreender mais profundamente o Concílio Vaticano II e por o implementar correctamente na Igreja. Foi esse o nosso objectivo durante este Sínodo. […] A mensagem do Concílio Vaticano II já foi bem-vinda com grande acordo pela Igreja inteira, e permanece a “Magna Carta” para o futuro» (RF, II, D 7).

«Finalmente, possa chegar nos nossos dias aquele “novo Pentecostes” de que o Papa João XXIII já tinha falado e de que nós, com todos os fieis, esperamos do Espírito Santo» (RF, II, D 7).

Posfácio

Poder-se-á comentar que ao divulgar (14) este documento dos Bispos de 1985 sobre o CV II, eu estarei a procurar ser conciliador. Concordo! De facto, procuro. No ano que findou (2017) e durante o qual, obviamente sem precedentes na história da Igreja, esta se permitiu, ao mais alto nível, celebrar (sic) a rotura operada no século XVI, chamada Reforma, julgo ser da máxima importância todo e qualquer cuidado e esforço postos na manutenção e até acréscimo da unidade católica, universal, de todos os baptizados na Santíssima Trindade!

Com efeito, a túnica «sem costura, tecida de uma só peça» que revestiu o Corpo de Cristo – do qual a Igreja é misticamente uma concretização - e que os soldados que repartiram as outras suas roupas, após o pregarem na cruz, não ousaram rasgar (cf. Jo 19,23-24) não deverá manter-se assim? Não a romperam os próprios carrascos de Cristo. Efectivamente, diz São João que assim «foi o que fizeram os soldados» (Jo, 19,24). Ora, quanto mais nós, não devemos rasgar ainda mais a túnica, se não desejarmos comportarmo-nos ainda pior que os carrascos de Jesus, mas antes como Seus fieis discípulos!

Mais: penso que não podemos separar uns dos outros - com hermenêuticas da rotura, independentemente de quem as aplica e do lado de onde provêm - os 21 Concílios ecuménicos que fazem parte da história da Igreja (15), ocorridos desde o ano 325 até 1965. Todos eles foram legítimos, confirmados ou pelo menos aceites pelo Sucessor de Pedro; todos ocorreram naturalmente em diversos contextos históricos; com documentos, afirmações ou condenações de diverso peso, natureza e força dogmática, pastoral ou disciplinar.

Penso que a interpretação de todos os 21 Concílios ecuménicos, só pode fazer-se segundo uma «hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade». Penso que ou se aceitam todos os 21 Concílios, em bloco, embora tendo em conta tudo o que teologicamente os distingue entre si; ou se rompe com todos, ao infligir entre tal e tal Concílio uma descontinuidade fatal. Penso que não há alternativa, segundo a lógica racional mais elementar, mas, sobretudo, segundo a fé católica e apostólica, da qual o legítimo Sucessor de Pedro, como Cabeça visível, e com ele os Bispos, cum Petro et sub Petro, são os garantes ao longo da História.

Nem devemos privilegiar um qualquer Concílio em relação a outro: «A Igreja é uma e a mesma através de todos os Concílios» (cf. RF, I,5).

E concluo com uma exortação: uma vez que estamos na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - já em 1894, Leão XIII encorajava a pratica de uma Oitava de Oração pela Unidade - rezemos pelo incremento da visibilidade da unidade católica, na mesma e única fé, nos mesmos sete sacramentos, na mesma hierarquia! (cf. Catecismo da Igreja Católica, nº 813-816).

Janeiro de 2018, durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

João Duarte Bleck, médico e leigo Católico

Referências (da 2ª parte)

13. Diaconia, palavra de origem grega que significa o serviço que se presta.

14. Recordo que a 1ª parte das duas que constituem este artigo, foi já anteriormente publicada.

15. cf. o respectivo Sumario, pp 8-29, em: Heinrich Denzinger, Peter Hünermann, El Magisterio de La Iglesia Enchiridion Symbolorum Definitionum et Declarationum de Rebus Fidei et Morum, Version castellana de la 38ª edición alemana, Segunda edición corregida: julio de 2000, Empresa Editorial Herder, S.A., Barcelona. 


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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Eduardo Verástegui fala da sua conversão ao catolicismo



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Nada se pode fazer de melhor do que ouvir com piedade a Santa Missa

"Fica sabendo, ó cristão, que a Missa é o acto mais santo da Religião: tu não poderias fazer nada de mais glorioso em honra de Deus, e nada de mais vantajoso para a tua alma do que ouvir piedosamente a Santa Missa, e quanto mais vezes te for possível."

São Pedro Julião Eymard


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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Papa Francisco não casou ninguém

A notícia do dia é: "Papa Francisco casa dois assistentes de bordo durante um vôo". Qual é o problema com este título? É que o Papa Francisco, mesmo sendo Papa, não pode casar ninguém.

Chama-se ministro de qualquer um dos 7 sacramentos a quem administra o sacramento, quem faz com que o sacramento se realize de facto. O sacerdote é o ministro da Eucaristia, é ele que faz com que aqueles gestos e palavras sejam realmente uma Missa: que seja renovado o Sacrifício da Cruz, e que o pão e o vinho se transubstanciem em Corpo e Sangue de Cristo. Quem não tiver sido ordenado sacerdote pode fazer exactamente os mesmos gestos e dizer as mesmas palavras que diz o sacerdote mas não existirá Missa nem Corpo de Cristo; antes será uma simulação de sacramento, um delito gravíssimo que implica a excomunhão latae sententiae.

No sacramento do matrimónio o ministro não é o sacerdote, nem o bispo, nem o Papa mas sim os esposos, como explica o Catecismo da Igreja Católica:

«1623. Segundo a tradição latina, são os esposos quem, como ministros da graça de Cristo, mutuamente se conferem o sacramento do Matrimónio, ao exprimirem, perante a Igreja, o seu consentimento. Nas tradições das Igrejas orientais, os sacerdotes que oficiam – Bispos ou presbíteros – são testemunhas do mútuo consentimento manifestado pelos esposos, mas a sua bênção também é necessária para a validade do sacramento.»

São os esposos que se casam um ao outro. Dizer que o Papa casou alguém implica dizer que o Papa se casou com alguém. Isto é impossível porque o Papa tem o impedimento da Ordem (é Bispo), mesmo que tentasse casar não conseguiria. Um Bispo nunca recebe a dispensa do celibato, e mesmo que recebesse apenas poderia ser conferida pelo...Papa. Estamos perante uma impossibilidade lógica.

Então, se são os esposos que se casam por que razão está lá um sacerdote (ou neste caso o Papa)? O sacerdote é o ministro da Igreja (não do sacramento do matrimónio), é a testemunha qualificada que ali está em nome da Igreja, para pedir e receber o consentimento por parte dos noivos, como explica o Catecismo:

«1630. O sacerdote (ou o diácono), que assiste à celebração do Matrimónio, recebe o consentimento dos esposos em nome da Igreja e dá a bênção da Igreja. A presença do ministro da Igreja (bem como das testemunhas) exprime visivelmente que o Matrimónio é uma realidade eclesial.»

Resumindo: Os sacerdotes não casam ninguém, são os noivos que se casam um ao outro, são eles os ministros do sacramento do matrimónio. O sacerdote é um representante da Igreja que está ali para garantir que foi dado o consentimento e que houve mesmo casamento.

João Silveira


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O Relatório Final do Sínodo Extraordinário dos Bispos de Outubro de 1985 sobre o Concílio Vaticano II (1ª parte)

Já desde há muitos anos se tem falado e escrito sobre o Concilio Vaticano II (1962-1965) (CV II): sobre os seus antecedentes próximos e até remotos; as suas virtudes; as suas ambiguidades; as deficiências e dificuldades na sua aceitação; enfim, as suas sequelas e, the last but not the least, o modo correcto de o interpretar, ou seja, a sua hermenêutica.

Ficou já para os anais da história conciliar, o discurso à Cúria romana que o Papa Bento XVI fez a 22 de Dezembro de 2005 (1), com a tipificação da hermenêutica conciliar em dois modos contrários: a da «hermenêutica da descontinuidade e da rotura» e a da «hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade»; assim como a “lição” proferida ao Clero de Roma, sobre alguns dos mais significativos documentos do Concílio, no seu último encontro com eles, enquanto Papa, no dia 14 de Fevereiro 2013 (2), apenas a duas semanas da sua resignação efectiva.

Um dos temas maiores, entre tantos outros, sobre o qual o CV II se debruçou, foi o da «Constituição Hierárquica da Igreja e Em Especial o Episcopado», no qual, é sabido, trabalhou então como teólogo perito, o Padre Joseph Ratzinger. Tema esse que constitui o Capitulo III da «Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium» (LG). Neste Capítulo III da LG, ficaram promulgados para além dos aspectos relacionados com a sucessão dos doze Apóstolos; o pensamento da Igreja sobre o Colégio dos Bispos, sucessores dos Apóstolos, e a sua Cabeça (o Papa); os poderes do Romano Pontífice; os poderes e as relações entre os próprios Bispos; as relações do Papa no e com o Colégio dos Bispos; a reafirmação da infalibilidade «na definição de doutrinas de fé ou costumes» de que goza o Papa, enquanto Cabeça do Colégio dos Bispos, assim como daquela de que é também possuidor o «colégio episcopal, quando este exerce o supremo magistério em união com o sucessor de Pedro» (LG, 25).

Da maior relevância para a história da redacção e correcta interpretação daquele Capítulo III da LG, há que referir que todo ele, foi objecto de uma célebre «Nota Explicativa Prévia», da Comissão Doutrinal do Concílio, comunicada «por autoridade superior» (sic, leia-se a mando de Paulo VI), em meados de Novembro de 1964, a dias da votação final da Constituição LG, onde se declarava que «é segundo o espírito e o sentido desta nota que se deve explicar e entender a doutrina exposta nesse capítulo terceiro» (3).

É nesta Nota que se detalha, «por autoridade superior» (sic), o entendimento a fazer sobre o que é o Colégio dos Bispos; como uma pessoa se torna seu membro; e qual a relação dos poderes do Sumo Pontífice «só» e em união com o próprio Colégio dos Bispos do qual é a Cabeça (4).

Em suma: a Nota de facto pretendeu enfraquecer uma interpretação demasiado generosa do alcance da noção de colegialidade e destacava a plenitude de poder de que sempre goza o Papa sozinho, enquanto Sucessor de Pedro.

Passados vinte anos - ia o Papa João Paulo II a cerca de um quarto do que seria o seu longo pontificado - realizou-se o segundo Sínodo Extraordinário dos Bispos, em Outubro de 1985, para «celebrar, verificar, [e] promover o Vaticano II». No final, os Bispos elaboraram o «Relatório Final» (RF), do qual só agora eu vim a tomar conhecimento, através de uma versão em Inglês (5).

Constatei que nenhuma versão deste Relatório, em que língua seja, consta do sítio internet do Vaticano, nem mesmo do sítio institucional específico dedicado ao Sínodo dos Bispos. Ao que me parece, naquele tempo era essa a regra: o Relatório Final dos Bispos, assim como as propostas a fazer ao Papa, eram endereçados exclusivamente ao Santo Padre, não sendo dado a conhecer ao público, ao contrário do que tem acontecido já desde Bento XVI. Para já, recordemo-nos de que foi decorrente do expresso pedido dos Bispos neste Sínodo Extraordinário de 1985, que se deveu a redacção do Catecismo da Igreja Católica, promulgado por João Paulo II em 1992, assim como o respectivo Compêndio, aprovado e publicado por Bento XVI em 2005.

Trinta anos depois daquele Sínodo Extraordinário de 85, ao comemorar o cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos pelo Papa Paulo VI  – de facto, a relevante expressão institucional perpétua da Colegialidade dos Bispos – o Papa Francisco fez um importante Discurso, em Outubro de 2015, no decurso do segundo Sínodo sobre a família, onde se deteve sobre a sinodalidade, isto é, nas suas palavras, o «caminhar juntos – leigos, pastores, Bispo de Roma»; sendo o Papa muito claro na sua intenção:

«Devemos continuar por esta estrada. O mundo, em que vivemos e que somos chamados a amar e servir mesmo nas suas contradições, exige da Igreja o reforço das sinergias em todas as áreas da sua missão. O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio» (6).

Não tardaram recensões deste discurso de Francisco, algo triunfantes, onde se louvavam os benefícios do «caminhar juntos» e da similitude entre a Igreja e o Sínodo e onde se revigora a implementação da colegialidade, como, por exemplo, a de um site brasileiro (7), no qual, dias depois, até se ousou, abusivamente, proclamar o seguinte grito que mais parece de vingança:

«Pois bem, o Papa Francisco pôs fim, em um único discurso, à Nota explicativa praevia de 1964 e às conclusões do Sínodo de 1985» (8) (negritos no original).

Quanto à referida Nota, já vimos atrás o que Paulo VI, com a sua autoridade, pretendeu explicar e sublinhar; e veremos mais adiante que o seu teor foi claramente reafirmado no RF de 1985. Numa 2ª parte deste meu artigo (9), veremos algumas das conclusões do Sínodo de 1985, às quais, segundo aquele articulista, o Papa Francisco terá alegadamente posto fim, o que não é verdade.

E com esta e outras atitudes tendenciosamente “iconoclastas” podemos confrontar as acusações que - numa outra perspectiva bem diversa, ainda que também de rotura, se têm intensificado mais recentemente em artigos e blogs - produzidos também contra uma correcta interpretação do Concílio e em desfavor dos Papas que o receberam, nomeadamente João Paulo II e Bento XVI, acusando-os de influências modernistas e por aí fora; sem terem em conta o que João Paulo II pretendeu com o Sínodo Extraordinário de 85, como é patente no RF respectivo, nem muito presente a documentada mudança de perspectivas que Joseph Ratzinger foi de facto assumindo desde que foi teólogo perito no Concílio até ao seu actual estatuto inédito de Papa Emérito. Quanto a este, basta ler o modo como o próprio Bento XVI se refere à sua participação no Concílio e aos seus efeitos, no recente livro-entrevista Últimas conversas com Peter Seewald, particularmente o capítulo da segunda parte intitulado justamente O Concílio: entre sonho e traumatismo (10.).

De facto, a referida contraposição de perspectivas e interpretações da história e dos documentos do Concilio Vaticano II, só vem acentuar (ou, finalmente clarificar?, só o futuro o dirá) a cada vez mais notória confusão que cresce actualmente na Igreja e que só não é vista ou admitida por quem tem dificuldades em lidar com graves situações de conflito; mas também por medo ou, porventura, devido a uma “prudente” gestão das relações de poder clerical...

Efectivamente, o Sínodo Extraordinário de 1985, já por aqueles anos, colocava-se numa posição de justo equilíbrio na análise do Concílio e dos primeiros vinte anos dos efeitos que se lhe seguiram, percorrendo um processo de recepção que João Paulo II procurou, digamos, regularizar numa «perspectiva interpretativa oficial, autorizada e normalizante» (sic) - como escreveu, num longo e clarificador artigo, um Professor da Universidade Católica de Minas Gerais, cuja leitura me permito recomendar (11).

Avancemos então para algumas significativas passagens do Relatório Final (RF) de 1985. Ele é constituído por duas partes fundamentais: na I, afirma-se o Tema Central deste Sínodo – Celebração, Verificação, Promoção do Vaticano II; na II, debruça-se sobre alguns Temas Particulares do Sínodo – o Mistério da Igreja, as Fontes da vida para a Igreja, a Igreja como Comunhão (e neste, particularmente sobre o tema quente da Colegialidade), a Missão da Igreja no Mundo (e aqui, detém-se sobre o significado da célebre noção de “Aggiornamento” (12), assim como da Inculturação).

Como é costume nos Relatórios finais, ao final de cada uma das diversas partes e temas, surgem as propostas dos Bispos ao Papa. Tanto quanto me foi possível investigar, deste Sínodo não resultou nenhuma Exortação Apostólica Pós-sinodal de João Paulo II; os frutos mais notórios e de maior impacto foram, como já atrás referi, o Catecismo e o respectivo Compêndio. E não é certamente pouco: penso até que podemos dizer, hoje, que a sua necessidade e oportunidade se têm manifestado autenticamente proféticas.

Aqui vão então e sem comentários, nesta 1ª parte do meu artigo, já alguns excertos do RF de 1985 que efectivamente me parecem muito oportunos divulgar, perante o contexto eclesial actual (com tradução para português da minha responsabilidade, a partir da referida versão em inglês):

I. O Tema Central deste Sínodo: Celebração, Verificação, Promoção do Vaticano II

«Celebrámos em unanimidade o Concílio Vaticano II como uma graça de Deus e um dom do Espírito Santo, ao qual se seguiram muitos frutos espirituais para a Igreja universal e para as Igrejas Particulares, assim como para o homem do nosso tempo. Também verificámos unanimemente e com alegria que o Concílio é uma expressão legítima e válida; e uma interpretação do depósito da fé, tal como se encontra na Sagrada Escritura e na tradição viva da Igreja» (RF, I,2).

«A larga maioria dos fieis recebeu o Concílio Vaticano II com zelo; uns poucos aqui e além, mostraram resistência ao mesmo» (RF, I,3).

«Seja como for, embora grandes frutos tivessem brotado do Concílio, ao mesmo tempo reconhecemos, com grande sinceridade, deficiências e dificuldades na aceitação do mesmo. Na verdade, certamente também houve sombras no período pós-conciliar, em parte devido a uma incompleta compreensão e aplicação do Concílio, em parte devido a outras causas. Todavia, de maneira nenhuma pode ser afirmado que tudo o que aconteceu depois do Concílio foi por este causado» (RF, I,3).

«Entre as causas internas [das dificuldades] devem-se notar uma leitura parcial e selectiva do Concílio, assim como uma interpretação superficial da sua doutrina num sentido ou outro. Por um lado, houve decepções porque fomos muito hesitantes na aplicação da verdadeira doutrina do Concílio. Por outro lado, devido a uma leitura parcial do Concílio, foi feita uma apresentação unilateral da Igreja, como uma estrutura puramente institucional, esvaziada do seu Mistério» (RF, I,4).

«De quando em quando, também houve um descuido no discernimento dos espíritos, faltando distinguir correctamente entre uma legítima abertura do Concílio ao mundo e a aceitação da secularização de uma mentalidade mundana e da ordem dos valores» (RF, I,4).

«A interpretação teológica da doutrina conciliar deve prestar atenção a todos os documentos, em si mesmos e nas suas inter-relações, de tal modo que o significado das afirmações do Concílio – frequentemente muito complexos – possa ser entendido e expresso. Uma especial atenção deve ser prestada às quatro Constituições do Concílio, as quais contêm a chave interpretativa dos outros Decretos e Declarações. Não é lícito separar o carácter pastoral do vigor doutrinário dos documentos. Da mesma maneira, não é legítimo separar o espírito da letra do Concílio. Além do mais, o Concílio deve ser compreendido em continuidade com a grande tradição da Igreja e ao mesmo tempo nós devemos receber a luz da doutrina do próprio Concílio para a Igreja de hoje e para o homem do nosso tempo. A Igreja é uma e a mesma através de todos os Concílios» (RF, I,5).

18 de Janeiro de 2018, 1º dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

João Duarte Bleck, médico e leigo Católico

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Referências (da 1ª parte)

 3. cf. pp. 114-116, Concílio Ecuménico Vaticano II – Constituições, Decretos, Declarações e Documentos Pontifícios, 10ª edição, Editorial AO, Braga, 1987.
 4. cf. Idem.
 9. A 2ª parte será publicada em breve tempo.
 10. A edição que li deste livro, foi a seguinte tradução em Francês: Benoît XVI, Dernières conversations avec Peter Seewald, traduit de l’allemand par Odile Demange, Librairie Arthème Fayard, septembre 2016, pp 143-167. Muito reveladora é a longa e documentada pergunta de Seewald onde este começa por afirmar: «A sua posição sobre o tema Concílio evoluiu progressivamente» (p 165), à qual o Papa Emérito começa por responder: «Eu teria tendência a responder que sim» (p 166). Livro a ler obrigatoriamente por quem pretenda perceber melhor este génio da Igreja das últimas décadas, assim como o que foi o desenrolar do Concílio e o período posterior da sua recepção e aplicação.
 11. Rodrigo Coppe Caldeira, O pontificado de João Paulo II e a herança do Concílio Vaticano II: em busca de uma interpretação normalizante, in Revista Brasileira de História das Religiões, ANPUH, Maringá (PR) v. V, Edição Especial, Janeiro 2013, pp 155-173.
 12. Aggiornaménto: esta palavra italiana, significa actualização, modernização, o processo de pôr em dia (cf. Dicionário de Italiano-Português, 3ª edição, Porto Editora, 2009).


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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Benedicta: o canto mariano dos Monges de Núrcia



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Santo Atanásio descreve a vida e tentações de Santo Antão

Antão foi egípcio de nascimento. Os seus pais eram de boa linhagem e abastados. Como eram cristãos, também o menino cresceu como cristão. Depois da morte dos seus pais ficou só com a sua única irmã, muito mais jovem. Tinha então uns dezoito a vinte anos, e tomou cuidado da casa e de sua irmã. Menos de seis meses depois da morte de seus pais, ia, como de costume, a caminho da igreja. Enquanto caminhava, ia meditando e reflectia como os apóstolos deixaram tudo, e seguiram o Salvador (Mt 4,20;19,27); como, segundo se refere nos Actos (4,35-37), os fiéis vendiam o que tinham e o punham aos pés dos Apóstolos para distribuição entre os necessitados, e quão grande é a esperança prometida nos céus para os que assim fazem (Ef 1,18; Col 1,5). 

Pensando estas coisas, entrou na igreja. Aconteceu que nesse momento se estava lendo o evangelho, e ouviu a passagem em que o Senhor disse ao jovem rico: "Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres, depois vem, segue-me e terás um tesouro no céu " (Mt 19,21). Como se Deus lhe houvera proposto a lembrança dos santos, e como se a leitura houvesse sido dirigida especialmente a ele, Antão saiu imediatamente da igreja e deu a propriedade que tinha de seus antepassados: trezentas "aruras", terra muito fértil e formosa. 

Não quis que nem ele nem sua irmã tivessem algo que ver com ela. Vendeu tudo o mais, os bens móveis que possuía, e entregou aos pobres a considerável soma recebida, deixando só um pouco para sua irmã. De novo, porém, entrando na igreja, ouviu aquela palavra do Senhor no evangelho: "Não se preocupem do amanhã" (Mt 6,34). Não pôde suportar maior espera, mas foi e distribuiu aos pobres também este pouco. Colocou sua irmã entre virgens conhecidas e de confiança, entregando-a para que a educassem.

Então dedicou todo o seu tempo à vida ascética, atento a si mesmo e vivendo de renúncia a si mesmo, perto de sua própria casa. Ainda não existiam tantas celas monásticas no Egipto, e nenhum monge conhecia sequer o longínquo deserto. Todo o que desejava enfrentar-se consigo mesmo, servindo a Cristo, praticava sozinho a vida ascética, não longe de sua aldeia. Naquele tempo havia na aldeia vizinha um ancião que desde sua juventude levava na solidão a vida ascética. Quando Antão o viu, "teve zelo pelo bem" (Gl 4,18), e se estabeleceu imediatamente na vizinhança da cidade. 

Desde então, quando ouvia que em alguma parte havia uma alma esforçada, ia, como sábia abelha, buscá-la e não voltava sem havê-la visto; só depois de haver recebido, por assim dizer, provisões para sua jornada de virtude, regressava. Aí, pois, passou o tempo de sua iniciação, se afirmou sua determinação de não voltar à casa de seus pais nem de pensar em seus parentes, mas a dedicar todas as suas inclinações e energias à prática contínua da via ascética. Fazia trabalho manual pois tinha ouvido que "o que não quer trabalhar não tem direito de comer" (2 Ts 3,10). Do que recebia guardava algo para sua manutenção e o resto dava-o aos pobres. Orava constantemente, tendo aprendido que devemos orar em privado (Mt 6,6) sem cessar (Lc 18,1; 21,36; 1 Ts 5,17). Além disso, estava tão atento à leitura da Sagrada Escritura, que nada se lhe escapava: retinha tudo, e assim a sua memória lhe servia de livro.

Mas o demónio, que odeia e inveja o bem, não podia ver tal resolução num jovem, e pôs-se a empregar suas velhas tácticas também contra ele. Primeiro tratou de fazê-lo desertar da vida ascética recordando-lhe sua propriedade, o cuidado da sua irmã, os apegos da parentela, o amor do dinheiro, o amor à glória, os inumeráveis prazeres da mesa e todas as demais coisas agradáveis da vida. Finalmente apresentou-lhe a austeridade e tudo o que se segue a essa virtude, sugerindo-lhe que o corpo é fraco e o tempo é longo. 

Em resumo, despertou em sua mente toda uma nuvem de argumentos, procurando fazê-lo abandonar seu firme propósito. O inimigo viu, no entanto, que era impotente em face da determinação de Antão, e que antes era ele que estava sendo vencido pela firmeza do homem, derrotado por sua sólida fé e sua constante oração. Pôs então toda a sua confiança nas armas que estão "nos músculos de seu ventre" (Jo 40,16). Jactando-se delas, pois são sua preferida artimanha contra os jovens, atacou o jovem molestando-o de noite e instigando-o de dia, de tal modo que até os que viam Antão podiam aperceber-se da luta que se travava entre os dois. 

O inimigo queria sugerir-lhe pensamentos baixos, mas ele os dissipava com orações; procurava incitá-lo ao prazer, mas Antão, envergonhado, cingia seu corpo com sua fé, orações e jejuns. Atreveu-se então o perverso demónio a disfarçar-se em mulher e fazer-se passar por ela em todas as formas possíveis durante a noite, só para enganar a Antão. Mas ele encheu seus pensamentos de Cristo, reflectiu sobre a nobreza da alma criada por Ele, e sua espiritualidade, e assim apagou o carvão ardente da tentação. E quando de novo o inimigo lhe sugeriu o encanto sedutor do prazer, Antão, enfadado com razão, e entristecido, manteve seus propósitos com a ameaça do fogo e dos vermes (cf Jd 16,21; Sir 7,19; Is 66,24; Mc 9,48) (20). Sustentando isto no alto, como escudo, passou por tudo sem se dobrar.

Toda essa experiência levou o inimigo a envergonhar-se. Em verdade, ele, que pensara ser como Deus, fez-se louco ante a resistência de um homem. Ele, que na sua presunção desdenhava carne e sangue, foi agora derrotado por um homem de carne em sua carne. Verdadeiramente o Senhor trabalhava com este homem, Ele que por nós tornou-Se carne e deu ao Seu corpo a vitória sobre o demónio. Assim, todos os que combatem seriamente podem dizer: "Não eu, mas a graça de Deus comigo" (1 Cor 15,10). 

Finalmente, quando o dragão não pôde conquistar Antão nem por estes últimos meios, mas viu-se arrojado de seu coração, rangendo os seus dentes, como diz a Escritura (Mc 9,17), mudou, por assim dizer, sua pessoa. Tal como é seu coração, assim lhe apareceu: como um moço preto; e como inclinando-se diante dele, já não o molestou com pensamentos - pois o impostor tinha sido lançado fora - mas usando voz humana disse-lhe: "A muitos enganei e venci; mas agora que te ataquei a ti e a teus esforços como o fiz com tantos outros, mostrei-me demasiadamente fraco". "Quem és tu que me falas assim?", perguntou-lhe Antão. Apressou-se o outro a replicar com a voz lastimosa: "Sou o amante da fornicação. A minha missão é espreitar a juventude e seduzi-la; chamam-me o espírito de fornicação. A quantos eu enganei, decididos que estavam a cuidar de seus sentidos! A quantas pessoas castas seduzi com minhas lisonjas! 

Eu sou aquele por cuja causa o profeta censura os decaídos: "Foram enganados pelos espírito da fornicação" (Os 4,12). Sim, fui eu que os levei à queda. Fui eu que tanto te molestei e tão a miúde fui vencido por ti". Antão deu, pois, graças ao Senhor e armando-se de coragem contra ele, disse: "És então inteiramente desprezível; és negro em tua alma e tão débil como um menino. Doravante já não me causas nenhuma preocupação, porque o Senhor está comigo e me auxilia: verei a derrota de meus adversários" (Sl 117, 7). Ouvindo isto, o negro desapareceu imediatamente, inclinando-se a tais palavras e temendo acercar-se do homem.

Assim dominou-se Antão a si mesmo. Decidiu então mudar-se para os sepulcros que se achavam a certa distância da aldeia. Pediu a um dos seus familiares que lhe levasse pão a longos intervalos. Entrou, pois, em uma das tumbas; o mencionado homem fechou a porta atrás dele, e assim ficou dentro sozinho. Isto era mais do que o inimigo podia suportar, pois em verdade temia que agora fosse encher também o deserto com a vida ascética. Assim chegou uma noite com um grande número de demónios e o açoitou tão implacavelmente que ficou lançado no chão, sem fala pela dor. 

Afirmava que a dor era tão forte que os golpes não podiam ter sido infligidos por homem algum para causar semelhante tormento. Pela Providência de Deus - porque o Senhor não abandona os que nele esperam - seu parente chegou no dia seguinte trazendo-lhe pão. Quando abriu a porta e o viu atirado no chão como morto, levantou-o e o levou até a igreja da aldeia e o depositou sobre o solo. Muitos de seus parentes e da gente da aldeia sentaram-se em volta de Antão como para velar um cadáver. Mas pela meia-noite Antão recobrou o conhecimento e despertou. Quando viu que todos estavam dormindo e só seu amigo se achava desperto, fez-lhe sinais para que se aproximasse e pediu-lhe que o levantasse e levasse de novo para os sepulcros, sem despertar ninguém. O homem levou-o de volta, a porta foi trancada como antes e de novo ficou dentro, sozinho. 

Pelos golpes recebidos estava demasiado fraco para manter-se de pé; orava então, estendido no solo. Terminada sua oração, gritou: "Aqui estou eu, Antão, que não me acovardei com teus golpes, e ainda que mais me dês, nada me separará do amor de Cristo (Rm 8,35). E começou a cantar: "Se um exército se acampar contra mim, meu coração não temerá" (Sl 26,3). Tais eram os pensamentos e palavras do asceta, mas o que odeia o bem, o inimigo assombrado de que depois de todos os golpes ainda tivesse valor para voltar, chamou seus cães e arrebatado de raiva disse: "Vêem vocês que não pudemos deter esse tipo nem com o espírito de fornicação nem com os golpes; ao contrário, chega até a desafiar-nos. Vamos proceder contra ele de outro modo". A função de malfeitor não é difícil para o demónio. 

Essa noite, por isso, fizeram tal estrépito que o lugar parecia sacudido por um terremoto. Era como se os demónios abrissem passagens pelas quatro paredes do recinto, invadindo impetuosamente através delas em forma de bestas ferozes e répteis. De repente todo o lugar se encheu de imagens fantasmagóricas de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos; cada qual se movia segundo o exemplar que havia assumido. O leão rugia, pronto a saltar sobre ele; o touro, quase a atravessá-lo com os chifres; a serpente retorcia-se sem o alcançar completamente; o lobo acometia-o de frente. E a gritaria armada simultaneamente por todas essas aparições era espantosa, e a fúria que mostravam, feroz. 

Antão, atormentado e pungido por eles, sentia aumentar a dor em seu corpo; no entanto, permanecia sem medo e com o espírito vigilante. Gemia, é verdade, pela dor que atormentava seu corpo, mas a mente era senhora da situação e, como por debique, dizia-lhes: "Se tivessem poder sobre mim, teria bastado que viesse um só de vocês; mas o Senhor lhes tirou a força e por isso se esforçam em fazer-me perder o juízo com seu número; é sinal de fraqueza terem de imitar animais ferozes". De novo teve a valentia de dizer-lhes: "Se é que podem, se é que receberam poder sobre mim, não se demorem, venham ao ataque! E se nada podem, para que esforçar-se tanto sem nenhum fim? Porque a fé em Nosso Senhor é selo para nós e muro de salvação". Assim, depois de haver intentado muitas argúcias, rangeram os dentes contra ele, porque eram eles próprios que estavam ficando loucos e não ele.

De novo o Senhor não se esqueceu de Antão na sua luta, mas veio ajudá-lo. Quando olhou para cima, viu como se o tecto se abrisse e um raio de luz baixasse até ele. Foram-se os demónios de repente, cessou-lhe a dor do corpo, e o edifício estava restaurado como antes. Notando que a ajuda chegara, Antão respirou livremente e sentiu-se aliviado das suas dores. E perguntou à visão: "onde estavas tu? Por que não aparecestes no começo para deter minhas dores?" E uma voz lhe falou: "Antão, eu estava aqui, mas esperava ver-te enquanto agias. E agora, porque aguentaste sem te renderes, serei sempre teu auxílio e te tornarei famoso em toda parte". Ouvindo isto, levantou-se e orou: e ficou tão fortalecido que sentiu o seu corpo mais vigoroso que antes. Tinha por aquele tempo uns trinta e cinco anos de idade”.

Santo Atanásio in 'Vida de Santo Antão'


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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A mensagem de Fátima continua por cumprir



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PSD - Perversão Sacripanta Dacnomaníaca

A deriva putrefacta e totalitária do psd tem vindo a acentuar-se ao longo dos anos.  A sanha furiosa e selvagem da mentalidade frenética, danada, homicida e satânica, foi paulatinamente ganhando força até tomar o poder, seduzindo e ilusionando os militantes do boa-vontade, muitos deles católicos que, não obstante o seu espírito sincero de missão, se tornaram “companheiros de jornada” ou, como outros interpretam, ‘idiotas úteis’.

Nas eleições de ontem foi escolhido, pelos militantes do partido,  por larga maioria, uma candidato que se empenhou, pública e activamente, na campanha para liberalizar o homicídio-aborto e, mais recentemente se pronunciou, por escrito público, como favorável ao homicídio sob a forma de eutanásia/suicídio assistido.

De nada adianta afirmar que o partido não tem uma posição sobre esses temas e que os deixa à consciência de cada um dos deputados – mutatis mutandi  seria o mesmo que, perante o holocausto, uma força política de então dissesse que o problema da matança dos judeus, e de tantos outros, era uma questão da consciência de cada um. Acresce que, consequentemente, não haverá um critério adequado para a escolha dos órgãos partidários, dos deputados e de um hipotético governo. 

De modo, que os denominados católicos que militam neste partido estão a repetir o erro crasso de outros irmãos na Fé que, há alguns anos, cooperaram com o Partido Socialista. Servem para angariar, votos, promover o partido, iludindo os votantes crentes, e, ainda, para perpetuar as gravíssimas injustiças ‘legisladas’, contribuindo desse modo para impregnar a cultura e mentalidade das gentes não só com uma indiferença, fruto da não impugnação por parte de quem o devia fazer, mas, mais grave ainda, suscitando a conformidade e concordância com aquilo que deveria ser adversado e repugnado. 

Já se sabe que para isto contribui a Rádio Renascença, agências eclesiais e a repetição, monótona e bocejante de um Episcopado que em vez de promover uma formação contínua e sistemática, repete há décadas, como um gravador avariado, que é preciso um grande debate (?) na sociedade portuguesa que, evidentemente, é perpetuamente adiado.

Se era já extremamente difícil admitir, tentando justificar, a presença de católicos e apoiantes no psd, a partir de ontem parece impossível fazê-lo, uma vez que não se vê  como poderão evitar a cooperação formal ou gravemente material com o mal, o que nunca è permissível, mesmo que seja como meio para alcançar um fim considerado bem.

O dever grave de não cooperar com forças políticas ou partidos que lesionam os princípios básicos da Fé e da Moral não exime os católicos da responsabilidade pelo Bem-comum. Afinal o empenho político não se esgota –e frequentemente mesmo distorce-se - na partidocracia nem no voto nem na maioria como critério do justo e do injusto, do bem e do mal, do verdadeiro e do falso.

Pe. Nuno Serras Pereira


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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Polónia: Partido do Governo propõe que bebés com deformações graves possam nascer para receberem o baptismo

Jaroslaw Kaczynski, o Presidente do PiS (Partido que está no Governo na Polónia), fez uma proposta que escandalizou a União Europeia porque reconhece a dignidade do nascituro e a importância do baptismo:

«Queremos chegar a um ponto em que, mesmo nos casos de gravidezes muito difíceis, em que a criança está condenada à morte, com deformações graves, estas terminem num parto, para que a criança possa ser baptizada, enterrada, ter um nome. 

Queremos que isto seja possível tendo em conta a ajuda real que será prestada também através de meios públicos. Claro que estamos a falar de casos de gravidezes difíceis, em que não há risco para vida e saúde da Mãe.»


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